quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vizinhos Intrínsecos.

Escolho a cadeira certa. Sento-me de frente para o olhar fixo no meu. A conversa desprende-se de palavras, pendura-se nos corpos. As mãos, níveas, repousam em cima das minhas que aguentam o tampo frio da mesa. Usa uma camisola em lã de um azul que não consigo apontar, nem tanto a matiz do céu, nem tanto o tom do mar. A beleza assombra-me sempre que me detenho na curva ideal dos seus lábios, no traço delicado do seu nariz, no contorno dos olhos castanhos, na ternura sincera do seu sorriso. Tamanho assombro este de ver tudo o que quero assim tão perto. Eterno assombro. O cabelo, moreno e sedoso, mais do que alguma vez imaginei ser, pende-se-lhe na fronte à espera que os meus dedos inquietos o arrumem no lugar. Tem a pele quente e os meus lábios querem comprovar. Dedico-me a guardar tudo o que tiver para dar-me. Mesmo que quisesse, não saberia o que dizer que não fosse óbvio neste momento.

"És linda."

"Amo-te."

Eterno Verão.

É tanta a chuva que nos sentimos anfíbios. As árvores, antes algas que algo mais, baloiçam ao compasso dos ventos húmidos e estacam nos dias gelados. As ruas são rios e os rios, transbordados, são ora mares que desaguam na doca. O ar, outrora respirável, transcende-se agora numa versão perfurante que força a sua entrada nos pulmões ávidos da vida humana. Ainda assim é Verão. Não no céu, não na agenda que se esvai em folhas, muito menos na mente de um qualquer transeunte a caminho do trabalho. É Verão aqui dentro. Dentro de mim trago Sol.

Eis o poder do Amor. Como a vida, consegue emergir no cenário mais estéril, na situação mais inesperada, no caso menos provável, no quadro mais negro, na pessoa mais reticente. Em mim. O tempo? Distorço-o segundo a minha vontade. É Verão. Aqueço o meu mundo, aqueço-lhe os lábios. Escrevi ontem, há um mês, há muitos, não sei. Tenho tanto para escrever que desconheço onde começar.

Não me lembrava de ser assim. Nunca foi assim.