quinta-feira, 25 de junho de 2009

Monstro.

A luz da casa de banho entreaberta contorna um corpo sobre a cama desordenada que descubro não ser o meu. Reclassifico a minha geografia no regresso à realidade e sento-me junto à cabeceira, tentando percebê-la. Esta mulher que aqui repousa, fui eu que a trouxe, foi ela que se deixou trazer até aqui. Respira saudavelmente e reage à minha mão nas suas costas com duas ou três palavras mal desenhadas. Julgo que disse o meu nome. O reconhecimento garante-me um sorriso. A lucidez vem vindo pé ante pé. Lembro, aos poucos, o sucedido. O que tinha vestido, que agora se confunde com o soalho escurecido do quarto, o seu perfume, que agora evaporou à mercê do nosso suor, e mesmo o seu nome que agora se ergue na minha mente como um enorme letreiro de Las Vegas. Mais uma Noite a alimentar o Monstro. As minhas mãos inquietam-se na sua pele e a Noite ainda é nossa.

Suspenso.

Pairo sobre os dias. Flutuo por entre os ares quentes da minha paixão pelas coisas e os ventos gelados da minha mente. Para cada sorriso que me encanta há um excelente motivo para ignorá-lo que rapidamente engendro, por cada beijo que os meus lábios imploram há uma dezena que o meu cérebro nega, em cada corpo nu de mulher na minha cama há uma razão para ser efémero.

Para cada texto que escrevo há outro que diz praticamente o oposto.

Inerte.

A quietude faz-me cismar no caos. É a sós com o silêncio que melhor me conheço, que melhor sei encontrar a pessoa que sou neste momento, a pessoa que escolhi para ser neste instante do prato giratório de formas que consigo assumir. E quando o corpo se contorce oiço-lhe o revirar dos músculos e da alma em gemidos secretos. Tudo ecoa no vazio da voz. Ganho cada vez mais apego a este sossego aparente, a esta dormência sacudida que a paz no início de Noite me traz. É sempre no espelho escurecido pelas estrelas que o meu reflexo tem mais brilho, sempre aí que consigo observar-me sem virar o olhar para os ladrilhos da sala alumiada. Orgulho-me tanto do que não consigo identificar em mim que prefiro-me incerto e encoberto no ocaso dos dias. Quedo sobre o sofá, distancio-me friamente dos horrores quentes que aperto no peito e racionalizo o impensável.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Noites.

Vivo Noites agitadas. No meu quarto, lá fora, dentro de mim, as Noites descrevem-se em tumultos. Constantes lembranças de humanidade que me ocorrem quando aperto entre os dedos pensamentos lascivos que embaraçam as paredes que os guardam, sentimentos antigos de querer invadir o corpo de alguém com o prazer em mente. Acorrento-me à cama e fecho os olhos com força. É a depravação que vem chamar-me, sussurrar-me. E eu com tanta vontade de ouvir.