domingo, 26 de abril de 2009

Receita.

Salpico os dias de emoções, polvilho as horas com sorrisos, despejo cisma nos minutos e amasso o ser com as mãos sedentas. Recheio a mente de desejo e molho os lábios em perversão. A incerta receita para viver escreve-se num corpo de mulher.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Qualquer Coisa.

Qualquer coisa que me ilude anda por aí a pairar, escondida no calor, na brisa que não quer soprar. Uma certa sensação. Um querer. Uma comichão que me faz espernear. Anda por aí qualquer coisa, anda qualquer coisa no ar. Uma vontade de ser.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Focos de Luz Existencial.

Encontra-se luz nos lugares mais inesperados. Nos túneis mais negros, nas estradas menos iluminadas, nos sítios mais inóspitos. Pessoas há que irradiam luz na vida de outras sem nunca pedir um clarão, sem nunca esperar um facho em troca. Pessoas que esquecem o calor da luz de tanto a reflectirem para o mundo.

Por vezes a luz de uma pequena frase acende-nos um dia inteiro. Às vezes um sorriso ofusca-nos.

Anúncio.

Subia a íngreme calçada para casa de cabeça no ar. O azul turquesa espesso por detrás dos prédios aclamava os últimos murmúrios no vento de que algo negro estava para chegar. Os sons da rua calavam-se, à espera. As pessoas haviam recolhido. A expectativa da Noite. Assisti a este fenómeno mais vezes do que as que consigo contar e nunca lhe encontrei palavras dignas.

Ambiente Quase Familiar.

Quando me sento em frente ao computador, a meio da Noite, e o cansaço adormece as subtilezas do corpo mal pousado sob a meia luz que acende a sala, existe toda uma sensação de conforto e entrega a forças desconhecidas que me invade. E rendo-me. Aí todos os demónios rastejam dos seus esconderijos e rodeiam-me apenas para se desiludirem com o desinteresse. O meu olhar fleumático fulmina de indiferença todos os problemas que o dia possa acarretar. Convivo com eles como se fossem parte da família, como se os anos de luta incessante nos tivessem ligado violentamente. O pacífico prelúdio de mais um dia de batalha. Amanhã outros virão.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Terceiro ou A Vã Tentativa de Tentar.

Se somos tentados a toda a vida tentar, toda a vida tentamos tentar. É quase uma enorme tentativa, que de tão enorme é de tentar, tanto tentamos tentá-la que acabamos por não tentar. Que tentação esta de tentarmos! É quase como se não houvesse algo mais a tentar que não seja a tentativa de algo tentar.


A vida chega a ser uma lenga-lenga.

Sex(t)o ou o Texto Profético da Libido do Autor.

Quando existires, digo-te isto:

A honestidade é louvável. Gosto de acreditar que sim. Honestamente... preciso de ti. Não, não se trata de um fenómeno metafísico e espiritual onde uma alma não passa sem a outra, não envolve reencarnação ou destino. Quero-te e tudo aquilo que representas. Quero o teu cabelo, os teus olhos, a tua boca, a tua língua, as tuas mãos, as tuas unhas, os teus dedos, o teu cheiro, a tua roupa, a tua voz, os teus gemidos, o teu riso e quero também tudo o que não enumerei na lista anterior. Quero repetir-te em mim, quero que me deixes marcas como eu vou deixar em ti. Honestamente o teu corpo, se me permites o reenforço da ideia, tem de ser meu. Depois devolvo-to. Prometo. Depois do prazer. Pode demorar algum tempo, mas devolvo-to. Honestamente vai demorar. Mas devolvo-to! Não vou sequer estender-me em dissertações acerca do que pretendo fazer contigo ou com as várias partes do teu corpo que tenho de provar pois isso seria um insulto às tuas sensações. Não quero apenas sexo, muito menos "fazer amor" contigo... quero que nos confundamos. Quero-nos indistinguíveis de tão enlaçados um no outro, de tão embebidos um no outro, quero que as nossas vozes sussurrem nos ouvidos um do outro. É só isso que eu quero. Honestamente.

Primeiro (Beijo).

A verdade é que o romantismo persegue-me. Mesmo nas horas negras, nos minutos sombrios que acumulo neste vaguear errante pelo tempo. Sempre este filtro idiota a fazer-me olhar para as coisas, a fazer-me apaixonar pelos detalhes coloridos e orgânicos do dia-a-dia.
Prendo-me facilmente nos lábios de uma mulher, sem nunca a ter ouvido falar, sem nunca lhe ter pegado sequer na mão, sem nunca saber o seu nome. Apresso-me nos seus lábios enquanto a atenção mo permite. Observo da forma mais invasiva que existe. Peço perdão. E se observo faço poemas, pinto telas e desenho carvões dentro da minha mente. Uma enorme e repleta galeria de arte secreta. Depois disperso-me e a galeria é encerrada.

O sangue ainda ferve quando encadeio olhares com uma desconhecida na mesa junto à janela. Um fôlego de vida. Chego a sorrir de embaraço, do arrepio que me aperta a barriga.

Imagino sempre o primeiro beijo como a cena de um filme. Câmaras postas naqueles lábios que me fizeram abstrair da conversa de algibeira, luzes brandas para o ambiente ser propício, palavras simples, mudas e por fim o contacto. Eléctrico.

Volto a sorrir de embaraço.

Quedo-me facilmente a beber da Lua cheia quando o céu nocturno é generoso e abre as suas portas para mim. Ainda sou romântico, raios.

Quarto.

Às vezes acordo sem saber quem sou. Passo as mãos pelo rosto em frente ao espelho, aperto as bochechas e estico a pele que sucede o queixo. Tento refazer a imagem que tenho de mim. Coço os dedos na barba e olho-me no fundo dos olhos. Só mais um surto de existencialismo. Desconfiado, sentado na beira da cama a calçar as meias, acabo invariavelmente por aceitar que devo ser isto. A cafeína do cappuccino matinal apazigua a minha preocupação. Agarro nas chaves de casa, aperto o saco de lixo e faço uma vénia. Vou pelas escadas a cismar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Segundo.

Nesse segundo, tudo mudou. A explosão abalou os céus e uivou para susto da Lua, o azul queimado sufocou no som ensurdecedor do fim das coisas e o ruir da vida tornou-se palpável no ar mais distante, ao mais longínquo dos olhares. A cidade foi devastada. A baixa trocada por apenas uma enorme vala, uma tremenda cratera fumegante onde o silêncio germina sob a rocha aquecida. No seu centro, no ponto mais fundo da profundidade terrestre, ergueu-se um vulto, uma pessoa, um único sobrevivente. Um homem.
Nesse instante a percepção de continuar vivo atingiu-o violentamente, como um soco no estômago, e fê-lo cair de joelhos. Voltou a nascer. Olhou em redor, incrédulo, despido de razão ou propósito, como um recém-nascido. E sentiu a solidão. Sentiu a ausência. Entendeu o nada como nunca antes julgara possível entender. Forças ganhas no corpo, trepou da cratera onde nasceu e sentou-se no precipício do ser. Baloiçando as pernas acima das trevas dispensou o medo e aceitou o bater do coração como inevitável. Ouviam-se sirenes mais além, gritos de vida nos arredores e vozes alteradas pelo eco ao virar das esquinas.
O homem não sentiu conforto. Fixando o vazio percebeu que nunca poderia voltar a procurar a paz nos outros mas apenas em si mesmo, apenas na memória e no mistério que é viver. Sentiu a solidão. Passaram pouco mais de cinco minutos até as ambulâncias e as pessoas e o caos chegarem. Cinco minutos que valeram por todos os anos que vivera. Camuflou-se na multidão e diluiu-se no aparato. Caminhou só em direcção ao futuro. Sacudiu a poeira do cabelo quando se viu reflectido num vidro partido e enfiou as mãos nos bolsos. Foi o único sobrevivente e ninguém o saberá.