quarta-feira, 25 de março de 2009

Frente a Frente.

Seguros, os olhares encontram-se e as palavras ficam ocas. As mãos inquietam-se no tampo da mesa e a breve química do assombro arrepia a pele mais sensível. Fitam-se e falam-se sem se ouvirem, destilam as lágrimas e a saliva em quadros imaginados ali ao lado. O silêncio passa-lhes ao lado, abraçados no caos da observação.

terça-feira, 24 de março de 2009

Nada Mudou.

As tardes dobram-se e as folhas estremecem nos caules das árvores sacudidas pelas brisas violentas da criação. Passeio por entre a Primavera pelo caminho do jardim, apertado por verde e liberto no azul pálido do céu, daquele azul de aguarela mal pincelada.
Esboço um sorriso leve de quem agradece o dia e conto as semanas que passei a cismar, a pensar em escrever e a não escrever, a formular ideias que nunca provaram o papel, a justificar o meu silêncio.
Nada mudou. Vivo na intermitência das nuvens e do Sol, alterno o poder quase divino com a fraqueza invertebrada de ser, escondo no sexo e nos lábios das mulheres o que o meu olhar evidencia sempre. Uma fome. Uma certeza de mais. Nada mudou. Um beijo ainda tem o mesmo sabor, a sede ainda se afoga na mesma fonte, eu ainda sou eu. Ausentei-me, talvez, por ser apenas eu, por correr o risco de repetir-me. Castiguei o meu próprio desinteresse.

Mas o silêncio arde tanto. Tive de voltar a segurar a caneta bem apertada na minha mão esquerda, como se o Mundo pendesse sobre ela, e escrever. O som da tinta cravada na folha em movimentos bruscos, quase sôfregos, quase erráticos de tanta divagação. E o silêncio quebra-se. Ouve-se de novo um compasso. Uma cadência de alma.