quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Contraste.

O mundo está a cair. O chão está a abrir a boca e os carros estão a ser engolidos. Os aviões estão a cair do céu como cometas escarlate e as pessoas estão de olhos pregados no azul à espera de algo. As árvores dobram com a força do vento e a chuva despeja-se em cima do asfalto. A agonia da fome faz estremecer os ouvidos de uns para outros continentes e os homens tremem os dedos nos gatilhos e nos botões até verem sangue. As crateras tomam o lugar dos edifícios e as notas ardem ao som da crise.

Molho os sapatos numa poça de água enquanto me debato com o guarda-chuva contra o vento forte, escondo a face com o cachecol e procuro o caminho para o trabalho, ansioso por viver mais um dia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Casa Vazia.

Envio o bater do coração pelo eco do corredor que chama por ti. As portas estremecem com os meus passos de pedra no soalho impaciente. As vozes antigas nos ventos que voam pelas vidraças verdes da varanda sussurram o oculto segredo que é esperar. Esperar pelo que não vem. A casa envelheceu muitos antes de chegar, muitos anos de espera, a esperar. E as explosões de sexo fazem cair os tectos e as paredes, deixam-me ao relento dos sentidos, orfão de corpo, de abrigo e ardor. Os gemidos e a saliva escorrem pela humidade dos dias como rios de capricho efémero que se afogam no mesmo mar insatisfeito. No fim, a casa fica sempre vazia.