segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Inquietude.

A luz espreita do hall pela porta entreaberta. Neste quarto escurecido suspiro, ofegante, pela cama vazia onde me sento. Os braços hirtos, desembainhados contra o colchão culminam nas mãos trémulas e nos dedos cravados no lençol. Todos os músculos em mim se contorcem de dor. Não me vejo na escuridão. O suor desenha-me a face escorrendo até ao queixo e os pés descalços pousam sobre a humidade que deixei no chão onde fui esquecer. Toda a pele tilinta. Nunca, como quando afogo a minha libido em flexões e exercícios até ao precipício da exaustão, sinto o meu corpo com tamanha minúcia, com tanta certeza. Respiro fundo e deixo o vapor sair. Deixo tudo sair.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

2009.

Questiono-me. Como devo somar os anos que vivo? Riscá-los na parede da jaula imunda onde a vida estagna? Anotá-los num diário com hipérboles e saudosismo? Guardá-los num baú fechado à chave na cave da memória? Escrevê-los em papel de carta para arder na lareira? Questiono-me sempre que o número muda, como uma criança que conta pelos dedos os anos que viveu.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Outra Manhã.

Paira sobre a calçada com passos leves, quase ensaiados de drama na extremidade de cada salto que a eleva acima de si mesma. Cabeça nas nuvens, cisma no chão. Solta a verdura do olhar na raridade do rosto, quando descoberto da gola do casaco bem apertado e cingido ao corpo, atado na cintura e preso à beleza. As mãos de brancura una, que apenas lhes consigo adivinhar a suavidade, espelham a manhã gelada nas unhas frias, abrigam-se nas mangas felizmente compridas. Decalca-se de entre a fachada, cintila por entre os detritos matinais de tudo o que se seguirá, beija com os lábios rubros e secos a minha testa e diz-me que vale a pena. Sigo-a mais uns metros, perplexo e enredado na perfeição da ganga nas suas pernas, no carácter idílico que uma mera manhã acaba por ganhar, na fortuna que tenho em estar vivo e ver. Ver e poder contá-lo. Os caminhos divergem. Perco-a de vista, engolida pela cidade. Mergulho no estômago da besta para mais um dia, convicto de algo mais. Ela anda por aí.