segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"Me & You"

O sofá encosta-nos. O sofá apresenta-se, neste espectro, a esta luz, a esta hora, debaixo desta chuva, como a perfeita desculpa para a nossa proximidade. Devo à natureza mole e fugidia deste assento a gravidade que nos atrai. Isso e as palavras. E o frio que nos cobre há tanto tempo. Não sentes este frio? E o teu cheiro também, também me descai na tua direcção. É como se não quisesse estar noutro lugar, como se fosse sempre aqui o meu refúgio. Como se o mundo fosse medonho para além deste sofá. E os olhos que se tocam, tanto se tocam que acabo sempre por seguir-te com as minhas mãos, ver-te de perto com as pontas dos dedos. A tua pele breve, fria e macia demais. As horas não passam, os minutos estacam, os instantes sucedem-se em fotogramas difíceis de esquecer. O breve conforto, o breve fantasma da quietude numa conversa de sorrisos. A mesa aperta-nos contra o sofá, aperta-nos um contra o outro e o café não arrefece. A luz das velas acende-me a alma.

Menção Tardia ao Natal.

Lavam-se as ruas com a chuva do fim. Ensopam-se pela sarjeta os últimos pedaços de embrulho e o laço mais ferozmente arrancado do Natal. Ainda paira no ar o cheiro a fritos e a doce. As gentes atropelam-se nos corredores de luzes e lojas e a vida torna-se de súbito mais leve. É o ano a extinguir-se.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Rua do Desejo.

Já o meu corpo recomposto havia descido a avenida com o pendor do iminente cheiro de mulher que deverei levar a passear pela rua de sempre, que acaba como sempre. E iremos vaguear, tolos, soltos pela calçada como dois animais enjaulados, famintos um do outro, predadores mútuos que sorriem com o inevitável desfecho. A porta. O prédio. As escadas. Os beijos. A saliva. O calor. Os sons. Os puxões nas roupas. A casa. O gemido. A pressa. A espera. O sexo. O prazer. A pele. O sabor. A sede. O sexo.

Mas passeemos. Ainda não lhe senti o cheiro do cabelo, nem sequer lhe tomei a mão na minha. Passeemos pois a rua é-nos longa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Avenida dos Desencontros.

Cansa-me viver neste mundo trocado, de amantes que nunca foram amados, de amados que não sabem amar, de romances que não podem ter lugar. Uma terra de paixões que explodem nas faces dos descuidados, que queimam pele virgem que não cicatriza, que não duram para quem mais precisa. Um reino de corpos convergentes, de lábios e línguas confluentes nos ardores do sexo, efémeros nos leitos da ternura e do que nos segura pela vida. Cansam-me os desencontros, as pessoas erradas, as conversas falhadas, os olhares vagos e os sorrisos impertinentes. Beijar bocas que nunca senti como minhas, provar a pele e as entrelinhas do desejo, sentir prazer mas nunca o lampejo, o clarão de algo mais brilhante. Canso-me de tanto abrir os olhos e tão pouco conseguir ver.

No fundo da avenida avista-se um banco de jardim. Sento-me e descanso.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Breve Instante de Lucidez Metafísica.

O Amor não é tudo, mas é quase.

A Paixão não dura para sempre, mas pode durar.

O Desejo não salva o mundo, mas salva uma vida.



A salvação é palpável. Ao alcance de um beijo, de um sorriso, de um corpo e de um dia luminoso.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Apanágio.

Vagueio por entre os ermos do dia com temperamento divergente. Palpito entre sorrisos completos e cismas teimosas, troco-os como parceiros de dança relutantes e ciosos entre si, tementes a uma definição. Não sou diferente de ninguém, luto por ser igual a mim. Alterno o desinteresse quase absoluto pelas letras com aquilo que sempre fui, troco esta indiferença habitual pelas tempestades que guardo nos intervalos da minha máscara. Guerreio diariamente.

Simples (Sussurro no Ouvido).

Não te movas. Deixa-me perceber o desenho do teu corpo quente sob o lençol, moldar-te as pernas no tecido frio, somente esculpir-te. Um daqueles momentos indubitáveis em que sei o que tenho de ser. Passar os dedos pela tua pele como que pela primeira vez, como se estivesse a conhecer-te de novo a cada centímetro, a cada novo êxtase. Provar o ar que respiras e cheirar o cabelo que pousas no leito transpirado de sexo. É sempre tão simples contigo. Os olhos fechados e esse sorriso escondido no colchão, aquele que guardas para mim porque sabes que gosto, porque gostas de mim. Umas vezes não sei se existes ou se te imaginei, outras vezes tenho a certeza. Fazes-me bem.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Tentativa de Expressão.

Confuso. Tudo em mim é confuso. Sinto-o na escrita, nas palavras, nas ideias que junto como pedaços de papel rasurados, amachucados e guardados lá para o fundo da mente. Vejo-o nas incertezas e no número ridículo de vezes que penso nas mesmas coisas para tomar as mesmas decisões. Percebo-o na frágil confiança que deposito em mim e na capacidade que posso ter para cativar alguém. A confusão está mesmo aqui. Como se o vento entrasse pela janela e soprasse o meu pensamento pelo chão, como se a sala estivesse vazia depois do despejo, como se a casa de sempre fosse agora um mausoléu de sombras. Acordo rodeado de incerteza e adormeço incerto de saber. Queria exprimir-me melhor, ser algo melhor, mas sou um poeta desagregado, uma espécie de escritor falhado, sem Norte e sem Musa, sem inspiração ou foco da sua força. Da sua caneta. Da perversão nas pontas dos seus dedos.