domingo, 14 de setembro de 2008

Pensamento Tardio de Uma Mente Febril.

Acredito no meu futuro com uma certeza feroz. É o presente que me desilude, que se estende há demasiado tempo num caminho que volto sempre a reencontrar como se andasse a viver em círculos.

Delírio Nocturno: Junto ao Mar.

O vento balança o seu corpo e as mentiras tornam-se verdades. Um breve momento de dúvida. Uma leve esperança no sentimento. A ilusão sucede-se. Não é o corpo, mas o vestido que balança consigo ao clamor surdo da ventania. E eu balanço com ela. O cabelo sacode a Noite dos seus olhos, agitado pela agitada brisa que vem do mar. Um raro momento de desejo. Querer ver-lhe o rosto, afastar-lhe o vendaval da fronte, ouvir o doce da sua voz, segurar-lhe a mão mais uma vez. A verdade nunca mente, penso para mim. O coração estremece-me. Eis-me: sóbrio e atónito.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Pela Manhã, Só.

Reencontro-me estendido na cama revolta, destapado, de olhos no tecto ardido pela luz do Sol que me corrói a vista. Toco-me no peito por instinto, tentando confirmar se realmente sou, se de facto existo. Os pêlos e a pele húmida convencem-me. Levanto-me pesadamente e vacilo até à casa-de-banho. As marcas da Noite iluminam-se frente ao espelho. Deixo a água correr enquanto molho os arranhões nos ombros e no pescoço para lhes tirar alguma dor. Lavo a saliva e o cheiro da cara até perceber que preciso de um banho. A água escorre na banheira e o vapor eleva-se acima de mim, mais leve do que eu, mais acordado que eu.
Quase que a ouvi a sair, duas horas antes, quase que senti o beijo que largou na minha testa. Na banheira, entretanto, o calor começa a carpir nos azulejos. Deixo a toalha ao meu alcance, largo os boxers rasgados no chão e escaldo os pés na torrente. Quase que me elevo acima do vapor. O sangue parou de brotar. Esboço o primeiro sorriso do dia.

Segredos de Elevador.

Serpenteio palavras na sua orelha. Empurro-as com a língua. As mãos, silenciosas, ocultam-se no ruído do primeiro gemido para se cravarem na sua pele. Está à minha mercê. O que ficou para trás perde o interesse. Não preciso de uma amiga, menos até de uma ouvinte. Preciso de mais.
Provo-lhe a saliva nos lábios maduros com um beijo brusco e conto-lhe baixinho o que vai acontecer. Vou dar-lhe tudo, levar aquilo que é meu. Vou alimentar este monstro até não restarem forças nos nossos corpos para um último uivo de prazer.