domingo, 31 de agosto de 2008

Subida ao Alto.

Saímos tarde do Hard Rock, de ouvidos hesitantes e incrédulos pela repentina quietude da avenida tardia. A Liberdade está silenciosa como um rescaldo da revolução. Carros surgem raros, como invasores de um quadro único de edifícios assentes em calçada e asfalto reluzente. Os semáforos são ornatos e as passadeiras alegram a estrada vazia. As luzes cansadas alumiam a caminho enquanto nos deixamos guiar pelo murmúrio que vem do alto das ruas escondidas na colina. E a pique subimos, pé ante pé, as ladeiras e subidas que nos aproximam do ruído. Vão surgindo pessoas, primeiro como sombras que se confundem no topo da rua, depois mais evidentes, em grupos cada vez maiores, anunciando a proximidade de algo que palpita na alta da cidade. Há quase uma antecipação, quase uma curiosidade que limita as palavras durante a viagem, como se o fôlego se prendesse nos passos inclinados e ingrímes da conversa a meio do declive. Sente-se o Chiado pelas costas e a última brisa atravessa-nos a fronte antes da chegada.

Espécie de Saudades.

Chego a ter saudades do Amor. Tento cobri-las com a total devoção aos mais próximos, como a manta que aquece tudo em que toca mas acaba curta para tamanho corpo regelado pelos Invernos da vida. Em casa, a sós, pela rua acompanhado, cruzo os dias alheado das paixões e dos calores antigos, ciente dos encantos e das dores que trazem consigo. Como ardem. Como ardo. Carne mais volátil jamais deverei conhecer. Sede mais impossível tento muitas vezes esquecer.
É o fardo de sentir, de acariciar as paredes e os corrimões com os dedos, de perceber o mundo nas palmas das mãos e no fundo da pele. Tomar-lhe o gosto e querer mais, sentir e sentir mais até ao limite da superação, até não haver mais luvas para calçar. Impressiono-me menos, fascino-me menos porque já fui tão fascinado, já fui tão impressionado com doses de luz e ilusão, aparento-me sempre mais desencantado, que exigo mais.
Não há mais barreiras a transpor. Sei tudo sobre sentir e sinto que seria um melhor ignorante, um desatento mais feliz, um romântico menos romântico. Seria melhor se não soubesse. Se o sabor fosse apenas um sabor, se alcançar a mão de uma mulher fosse apenas apertar uma pele muito mais suave que a minha, se beijar fossem só lábios, se amar fosse apenas uma ou duas palavras. Seria tão fácil sentir sem saber.
E em ciclo se retomam as saudades. Do fogo. Da dor. Da paz. Do abrigo. Dos cataclismas e tempestades. Enquanto o dia se atrasar, enquanto estiver abrigado de mim e da minha natureza latente.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Delírio Solar: O Plano.

Parece mais difícil do que é. Só tenho de beijar-te e mostrar-te este texto. Sei que nem te conheço, sei que estou a ver-te de onde me sento, deitada à beira da piscina como um adorno vivo do jardim do meu paraíso. Serias o único adorno do meu jardim. Sei tudo isso, sabes? É mais fácil do que parece. E quando me olhas daí com essa certeza que sublinha o verde que não desvanece por entre o Sol, sei que poderias ler cada palavra que escrevo neste momento com a leveza de um desses sorrisos ternos e rendidos que trazes contigo. Mas sei que não queres lê-lo por mim. Não é assim tão fácil. O que eu mais queria neste momento era ter-te. Custa-me admiti-lo, que nem cobiço habitualmente. Não quero adivinhar o teu nome nem imaginar o que fazes, não quero mesmo. Recuso-me a desenhar uma linha que seja da tua vida na minha mente e de minha autoria. Isto é o quanto eu te quero neste momento. Saber tudo pelos teus lábios - a tua história, o teu nome, o teu riso e o teu sabor. Por isso nem é difícil, não achas? Vais ver que não tarda estarei a levantar-me daqui e a ir na tua direcção para mostrar-te este texto. Vais ver como resulta.

Delírio Solar: A Fuga.

Perco-me nas ruas com a esperança de perdê-la. Interponho-me entre casais, desculpo-me à frente de idosos demasiado pacíficos, galgo lancis e serpenteio erraticamente de esquina em esquina. Nunca olho para trás. Entro num eléctrico e volto e sair com um sorriso idiota de orgulho no meu próprio engenho. Nunca olho para trás. Salto perigosamente um lance de escadas e aterro com violência sob o peso do corpo movido a adrenalina. Jamais penso em olhar para trás. Ganho tempo nos corrimões que descem as escadarias por mim e ganho corridas aos miúdos que jogam à apanhada no fundo da avenida. Corto por um túnel, viro para uma ruela, atalho pela relva de um canteiro. O suor escorre-me pela fronte como se os vizinhos dos primeiros andares brindassem com baldes de água a passagem do fugitivo. Nada me impede de parar. Finto habilmente os carros estacionados e nem me lembro de olhar para trás. Curvo à esquerda e salpico a parede com a minha vontade para esbarrar num beco. A luz do Sol ausenta-se por entre a roupa estendida e as paredes altas.

Punhos bem cerrados, envoltos em veias palpitantes. A boca salgada e a língua quente. Todo um corpo desperto. Olho para trás. Olho atentamente, como se tudo dependesse daquilo que consigo ver. Respiro. Transpiro de alívio. Não há sinal da sombra que teima em juntar-se a mim.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Chegada à Terra.

Nunca nos vemos nos céus, quando trocamos o corpo pelas alturas. O trânsito nunca é cerrado e as ruas empedradas de nuvens nunca se enchem de atropelos contra a nossa pele. Não há celeuma senão o soprar ensurdecedor do ar mais rápido que nós.
Nunca mais te vi nos céus, minha fada desempregada. Desde que te arranquei as asas. Será que a queda te fez esquecer? Não haverá quem te traga emprestada? Ou as asas não abundam por aí? O vazio nunca soube tão bem assim, sem ti. Pergunto porque sei que não podes responder.
Ninguém se cruza comigo quando me deixo voar, nem as vozes que chegam tarde se deixam ouvir a tempo de mim. É sempre como da primeira vez que amamos, esvoaçar acima da cidade. O medo de cair, ai se é igual. É sempre como se não soubesse aterrar senão em queda, meteórico. Mas depois surge sempre a leveza, depois o olhar sucumbe e o horizonte diminui. É a terra a chegar. Depois há sempre o acordar, inevitável.