segunda-feira, 14 de julho de 2008

Prólogo de Julho.

Ás vezes esqueço-me de escrever.
Por vezes lembro-me de ser.
Nem sempre sei escrever quando tento.
Já cheguei a tentar ser sem querer.
E sem conseguir.
Tenho de equilibrar-me.

Quarto Para as Dez.

A tarde desfez-se numa Noite calma, árida de palavras e de sons, dispersos no ar e soprados para a complacência dos candeeiros que se acompanham ao longo da rua. Da varanda, cansado e feliz, encontro consolo no horizonte negro de luzes longínquas que dão vida às águas mortas da baía. As palavras esgotam-se.

Quarto Para as Cinco.

Parece leve, o calor sobre os braços descobertos, envolto neste vento tardio de Primavera. É só em segredo, quando ninguém repara e a brisa se cansa, que o ardor é palpável quando lhe finco os dedos em cima. Está um dia que costumo encontrar descrito em livros, em filmes, em histórias de embalar, um daqueles dias em que o céu é demasiado azul para algo correr mal, em que o Sol brilha tanto que nos cega dos males de quem nos rodeia. Um dia bonito, para os mais pragmáticos. Tão bonito que me esqueço do que tenho para fazer, perco o interesse em escrevê-lo. Anoto simplesmente a absurda beleza do rio como pano de fundo ao caminho que faço para onde estiver a ir.

Quarto Para a Uma.

A superfície fria das coisas evapora no calor das janelas. É um quase fumo que se cria entre a sombra e o Sol. Como eu. Entre a sombra e o Sol. A luz persegue-me pela casa, em feixes, como olhos amarelados de gato negro que serpenteiam pela entrada da sala, mas não me encontra, fugitivo no corredor apagado. Cerro todas as persianas, abro todas as janelas, deixo-me respirar e partilho oxigénio com a casa. Apago a última luz na casa-de-banho antes de fixar-me por momentos no espelho. Este sou eu ao abrigo da vida. Pego nas chaves, respiro como se não tivesse fundo e aperto a fechadura gelada nos meus dedos esclarecidos. Abro a porta e deixo o tempo entrar às golfadas, como um vento impossível de se soprar. Ultrapasso a ombreira e piso o calor do dia. Olho para o relógio. Ressuscitei ao quarto para a uma. Saio pela porta de incêndio e pulo as escadas de todos os andares, dispenso favores de elevadores. No rés-do-chão avisto a claridade. A fuga acaba agora. Vou sair.