sexta-feira, 20 de junho de 2008

Noite Dentro.

Gosto de tactear o soalho do corredor, descalço, calmo e em passo de dança a caminho da sala, atraído pela música morna que deixei tocar antes de encher o copo de água. Gosto de fechar os olhos e adivinhar os instrumentos e os sentimentos que me alcançam pelas colunas. Gosto de sentar-me no sofá, pés bem fincados no chão, olhos bem abertos para o tecto mal aceso da sala quieta a sorver o som enquanto desenho sonhos mais brilhantes. Gosto de molhar os lábios e imaginar. Gosto de sentir e sorrir na madrugada, confiante na manhã seguinte.

A Propósito de Eventos Sociais.

As palavras, sei-o, mentem em demasia. Os olhos são subestimados. Pior. Sinto, como nunca, que o olhar é desvirtuado e colocado nos bastidores de uma conversa. Há demasiada fé nas palavras, demasiada confiança na eloquência e uma habitual negligência no olhar que tende a pairar sobre a sala, raramente pousando em quem ouve, em quem se está a ouvir.
Percebo por vezes que roço o atrevimento ao tentar, vejamos, apanhar na sua trajectória errática um pedaço de olhar no decorrer de uma conversa. Tento ouvir algo mais, ler qualquer coisa, apanhar uma palavrinha extra. Tento acima de tudo, falar acima do audível. Mas é difícil. As diferenças esbatem-se. Uma carta é cada vez mais uma conversa, um chat online é cada vez mais uma conversa, uma conversa é cada vez mais um telefonema.

Quando "Selecção" Rima Com "Decepção".

Finda a euforia, vem o cansaço fazer-nos ver a verdade. A vida fica mais cinzenta, menos verde, menos vermelha. Vejo-o no olhar descaído das pessoas que fitam as calçadas descoloradas no caminho para casa. As bandeiras vão sendo recolhidas, a tinta escorreu com o suor, as vozes perderam-se na emoção. Nunca vi um apito despertar tanta gente com a mesma violência. A cidade calou-se. O país ainda cisma. O povo vai dispersando pela Noite.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Lisboa, Lar de Santos.

Ninguém é santo. Poucas outras coisas que nos ensinam no berço fazem tanto sentido. E mesmo que um laivo de torpor nos invada e nos deixe acreditar, pois na noite dos santos, santos pareço não encontrar. A rima segue ao compasso da marcha.
As ruas estreitas alargam-se de gente e o cheiro a mangericos transforma a cidade em campo. Caminho atabalhoado, dançando de pessoa em pessoa, equilibrando a sardinha pendente na meia carcaça mal cozida numa mão e a bebida noutra. Os santos ainda não chegaram. Seguro-me num corrimão ferrugento que compõe uma escadaria igual às outras. Não sei se vim de lá, se vou para lá. As varandas estão enfeitadas de velhinhas e fitinhas de cores diferente que se cruzam numa teia que aprisiona o céu negro que cai sobre mim. Sei-o porque olhei para cima, procurando santos. Lá para baixo outra escadaria. Que raio. Subi por ela ou desci-a para cá chegar? A Noite está quente e recente e dos santos não sei dizer, com tanto degrau e rua de enchente, pessoas há que o ar não mente e as sardinhas são para comer. A rima desengasga-se com um gole. O riso solta-se e o norte foge-me. Façamos isto: Se encontrar o sítio onde deixei o meu carro, promovo-me a santo. A ilusão mantém-se e ninguém terá de saber a verdade.

Hiato.

Voltei. Não sei quando partirei, esqueço porque fui, caminho sobre as águas do mundo que desenho nestas palavras. Enquanto tiver de ser, serei, enquanto este exagero de quem me escreve não se contiver nas conversas de café e nos espaços entre o olhar e o que se segue, viverei.