sábado, 24 de maio de 2008

A Busca pt.2.

As Noites sem Lua são sempre mais escuras. De pouco me servem os olhos senão para desenhar contornos e vultos que preencho com o toque reconhecível das minhas mãos húmidas. O medo não me apanhou. O desespero largou-me a mão. Estou a sós com a minha sede. O piso foge-me e adivinho as lamas, as encostas sucedem-se e as bestas uivam à distância, como se espreitassem do abrigo da escuridão, sem olhos brilhantes e acesos, raiados sem sangue, sem bafos fétidos e garras ruidosas, meras criaturas mais assustadas que eu, como se a besta fosse eu. Seguem-me os passos. Adiantam-se aos meus passos, curiosas e intrigadas.
O céu limpou-se, mais atento que nunca ao meu progresso. Não sei onde estou, não vejo onde estou e sinto o corpo molhado de água e sangue e suor e os lábios estão salgados. Posso estar a ir pelo caminho certo, posso não estar. Saberei quando lá chegar. Se lá chegar.

A Busca pt.1.

Aquele breve momento em que o vento pára e os animais deixam de se ouvir. Estaco e a Noite estaca comigo. A cabeça roda lentamente para conseguir olhar para trás de mim. Aquela sensação de estar a ser seguido. Enveredo pelos arbustos mais densos com os pés incertos e os braços cansados e arranhados de esbracejar contra a floresta. Batalha que nunca pude vencer. O sangue seco, antigo, já retarda o escarlate recém-chegado à flor da pele.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cinzento.

O teimoso cinzento que se prende aos céus não me estanca a secreta vontade de sair de casa, de um motivo. De uma razão. Mas nada surge, nada senão o eco oco da casa quase quieta de ventos parados e um corpo alheado por entre a mobília, camuflado na sua crença de inanimado.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Prelúdio da Questão.

Parámos à porta de minha casa. Percebi-o porque o motor parou e porque as suas mãos largaram o volante e perderam-se. A mão direita percorria impacientemente o peito até aos seios, deixando apenas um dedo pendurado no decote. Encontrei a mão esquerda bem segura no meio das minhas pernas quando inclinou o corpo na minha direcção e cravou os seus lábios nos meus. Violentamente. Daqueles beijos que nos obrigam a abrir a boca só para que nos possam encontrar a língua. Não tardou a encontrá-la. A minha reacção foi instintiva. Afastei-a, bruscamente, dos beijos. Ripostou, quis voltar a provar-me e eu fugi-lhe. Tentou prender-me contra o vidro do passageiro mas eu era mais forte. Lancei-a contra o seu assento e segurei-a pelo cabelo. Parámos por momentos, de respiração pesada, de olhos nos olhos. Fiz-me rendido e aproximei-me para um beijo. Mas não beijei. Em vez disso, segurei-a com mais força e lambi-lhe o pescoço. Beijei-o. Fiz o que quis. Ela protestou com gemidos. Determinado a afastar-me dos seus lábios desci o trilho de saliva até sentir o decote áspero no meio da pele húmida. Já me segurava pelos cabelos com ambas as mãos, sem saber para onde me dirigir. E eu provava um dos seus mamilos enquanto uma das minhas mãos segurava o decote e o soutien amontoados para baixo e para o lado. Não parava de gemer. Não parava de ordenar-me que não parasse. Mas parei.

Parei, sorri e fiz uma pergunta.

"Queres subir?"

O Escuro.

Passei uma das últimas Noites apagado. Sem luz, sem computador ou televisão, estive por horas num deserto ainda mais árido que o meu. Desenrolei o corpo inquieto no sofá da sala, demasiado curioso para saber do regresso, demasiado confortável para aceitar ir dormir. Posso confessar que tive medo do escuro. Um medo antigo, mais antigo que eu ou alguém, mais do que o simples medo que nos faz fugir. Tive medo de não querer voltar. Tem algo de atraente, o escuro, quando nos banhamos nele com o aroma do silêncio e do sexo no ar, como única companhia. Não há som, só ruídos, não há palavras, só barulhos e aquilo que vemos é aquilo que queremos ver. Faz-me pensar, o escuro. Penso em mulheres e prazer e sentimentos voláteis, penso e quase que tremo de ausência. Mas não penso em luz. Não lhe sinto sequer a falta. Não anseio por algo que me possa preencher a vida de forma tangível. Compreendo de novo as falhas que acumulo, mesmo antes da luz regressar. O som do frigorífico vibrante enche a casa da vida humana que estivera ausente.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Repetição.

Há momentos em que me canso de escrever, em que a inevitável repetição de ideias serpenteia por entre as brechas dos dedos fincados na mesa. Como pairar sobre mim se as asas estão cansadas, se o vento parou de soprar e a ideia permanente é a inércia? Ao reconhecê-lo, sei-o, estou a repetir-me. Nada tenho a acrescentar-me senão as horas imperdoáveis e os dias que trazem consigo.