quinta-feira, 24 de abril de 2008

Panorâmica II.

Sentado na beira da cama vazia. A casa voltou ao silêncio de sempre. Às vezes penso como seria revelar aquilo que mais quero e que mais nego dentro de mim mas nunca o saberei enquanto viver escondido dos dias, à solta nas Noites.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Panorâmica.

Um corpo de mulher, nu, exausto, enlaçado num lençol cuja beleza nunca reconhecera até este preciso momento, ocupa a minha cama enquanto rabisco estas palavras num papel que encontrei no chão, no rasto do turbilhão de sexo que revirou a casa. Sento-me numa cadeira que recupera do recente esforço de conter o peso de dois corpos palpitantes e encontro gotas de suor no soalho em meu redor. Volto a observá-la, imóvel e graciosa, como um monumento vivo, e sorrio para o texto. Tacteio os lábios dormentes com a língua cansada e retomo o gosto que não tive oportunidade de compreender por entre a sede e a rendição. Saliva, suor e sexo. Parece-me bem. Tropeço nas peças de roupa arrancadas até à cozinha e fecho a porta do armário que não resistiu ao ímpeto de um braço desnorteado. Há roupa por todo o lado. Ainda tenho de descer ao andar de baixo para recuperar umas cuecas deixadas no vão das escadas. Volto a sorrir a caminho do quarto. O pedaço de papel está sem espaço e a Noite está apenas a começar.

83.

Na incerta cor da Noite desenho-te os traços necessários às pontas dos meus dedos, guias que as minhas mãos possam seguir ao longo das tuas pernas, por debaixo da mesa onde te sentas comigo à espera do prazer. Não me apresso sequer a perceber o fim das meias de vidro negras ao transpor o limite da saia indistinta. Não me apertes o braço com essa força desumana que surge sempre no fulgor do primeiro gemido, na linha de chegada ao interior das tuas coxas. Não me segures e não me peças mais ao mesmo tempo, que a contradição não tem posição nesta Noite. Essa nuca cheira a delírios quando te chego para mim com um arroubo e um brusco impulso na cintura, descuidando por momentos o cuidado com que me deixo vaguear pelo teu corpo assaltado só para te ouvir gemer mais uma vez. Viraste o rosto para a rua, como se olhar as estrelas aliviasse um pouco do ardor que te consome. És portuguesa, que invocas esse Deus de forma perceptível quando descais o rosto para perto dos meus lábios. E não são beijos, quando as nossas bocas se tocam, não são beijos que nascem. São tempestades, são o caos e a harmonia, são um trago do teu ser, um gole do teu corpo que me deixa embriagado. Imploras-me, ofegante, que te leve daqui, que cumpra as promessas que fiz no teu corpo. Na escuridão da esplanada somos invisíveis. Uma das minhas mãos, por fim, consegue apartar-se dos teus seios adivinhados sob a camisa mal abotoada. Sinto-os de cor. Afasto-te o cabelo desordenado dos olhos e dou-te um último beijo antes de levantar-me e oferecer-te a mão. Vem para casa comigo, vem dar sentido à Noite. Temos tanto para descobrir, somos muito por descobrir.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Olhos Cor de Enfim.

Encontro-a quase sempre no café da Noite. Encontro-a sempre no mesmo lugar, na mesma cadeira que adoptou como sua, como se outra não fosse suficiente. De vários ângulos, dependendo da mesa que ocupo de Noite para Noite, descubro-lhe lentamente os contornos e os tons. Da sua grande mala revela-se um livro que conquista a maior parte da sua atenção, repartida apenas pelo copo de leite com mel de urze e o ocasional olhar panorâmico pela sala fleumática. Nos cabelos lisos reflecte-se a luz branda do candeeiro mais próximo em tons de cobre que enaltecem o castanho brilhante que lhe escorre até aos ombros.
No entanto, por muito atento ao detalhe que me possa considerar, há nesta mulher um mistério que se adensa com o passar do tempo. Por várias vezes olhou-me nos olhos, tantas outras vezes eu olhei nos seus e ainda não consegui perceber a sua cor. Talvez me distraia, talvez haja no seu olhar muito mais para contar que uma simples cor. Raramente senti tamanha dificuldade em definir a forma como alguém me olhou. Uma calma louca, uma curiosidade cautelosa, uma invasão dos sentidos, um fitar desafiante, uma promessa de algo mais, um brilho do fundo do ser, um portão bem fechado. Tudo menos uma cor bem definida.

A Noite alonga-se e as folhas do seu livro esgotam-se sobre os seus dedos tranquilos, cotovelos pousados na mesa. Apetece-me saber a matiz da sua visão pela sua própria boca mas quedo-me e recuso-me a quebrar o parágrafo que estará a meio.

Pulsação.

Detenho-me em pequenos recortes do dia. Para lá de toda a inexistência que se apoderou do meu corpo, aperto junto a mim o inato direito à cobiça e à sublimação, a tendência para o desejo carnal e o enlevo descartável. O mísero palpitar sexual de um olhar mais pendurado num corpo de mulher ou o raro ensejo de provar os lábios rubros de uma rapariga demasiado longe são o suco liquefeito e pobre que me mantém à tona da sanidade. Como um morto-vivo sentimental, anseio a carne enquanto aguardo a ressurreição. Um pulsar menos lívido, um coração menos lânguido.

Medo do Escuro.

A superfície da tarde desabou sobre o rio com violência. As curvas rosadas do céu estilhaçaram o vidro que cobria a enorme janela de água. Nunca vira a morte do Sol de tão perto. E as aves recolheram-se a salvo da Noite, o azul sucumbiu ao fim do horizonte e a pálida cidade escureceu à minha frente. Desisti de contar todas as pequenas luzes, quase todas alaranjadas, que povoaram o quadro como pedaços de terror. Todos temem a escuridão lá fora. Tenho frio, daquele frio que vem pelo abrigo do crepúsculo, serpenteando de sombra em sombra até nos sussurrar o som nocturno das bestas e das estrelas. Oiço tudo e aperto os dedos nos punhos cerrados enquanto lambo os lábios gelados que outros lábios não sabem aquecer. Tento sorver o ar fresco e recente que o mar soltou, com gosto a sal, e perceber as palavras que o vento traz de longe. A dormência é temível. O sorriso que esboço como dedos em plasticina não revela aquilo que sinto. Temo a escuridão dentro de mim mas não me apetece fugir. Perco-me tanto na Noite que não sei encontrar-me de dia.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

79.

Não lamento o passar dos dias. Em mim não existe uma noção de arrependimento, de remorso, de irritação pelo que deixo de fazer na vida. Custa-me escrever neste estado. Desligado dos sentimentos. É como falar de outra pessoa, redigir uma notícia.