quarta-feira, 26 de março de 2008

78.

Quando perco horas de olhos no céu, o dia encurta-se e a vida sente-se. Despertam em mim sensações que julgara mortas no velório do meu antigo ser. Gosto de passear pela cidade como um turista perdido e sonhar com tempos melhores. Menos sós.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Dose Escarlate.

Somos só animais. Vivemos para devorar mais pequenos e fracos que nós. Bebemos tragédia à refeição e limpamos os lábios ao dinheiro. Temperamos a carne com amor para não nos restar apenas o sabor a sangue, afiamos a faca aos sentimentos e à beleza para o corte sair limpo e sem remorso.

A impaciência no restaurante germina pensamentos desagradáveis. Ter tempo limitado e fome agravante deixa-me amargo. A dose de esparguete à bolonhesa vem ao fundo do corredor e uma onda de bondade invade-me.

Monólogo de Cozinha.

Também ouves o bater dos dentes na carne? A mente alimenta-se de mim, mastiga os pedaços que deixaste ficar. Quando a fome se torna intolerável qualquer naco fétido serve para empanturrar os sentidos. Não sentes o cheiro? Acontece nestas Noites perdidas na mesa da cozinha a olhar para ti. Apareces sempre nestas horas porque és o fim de todas as coisas, o fundo do poço. Tens medo do escuro? Os monstros fazem-te companhia. Rezas por mim? Ou rezas por encontrar o caminho de volta? Onde está o teu Deus? Onde estás? Não te conheço, não te sei os contornos, a tua voz é o silêncio e a minha um estrondo no vazio que foco para lá do fogão. Aquele azulejo rachado. Juro que esta cozinha faz-me companhia. Consigo falar e quase ser ouvido, consigo ouvir as respostas e aceitar que todas elas são ocas como eu.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Psicose Azul.

Os dedos picam-se nos espinhos. Esfrego a cara mas não limpo a cor. A barba de três dias desarruma-se ao longo da pele e das mãos feridas. Esta sala não tem janelas. A luz, forte, não me aquece. Pinta-me a pele de azul e eu pico-me nos pêlos afiados que deixo crescer. Esfrego a cara mas não sinto dor. Sou eu que me deixo ferir. Só eu. Tenho o olhar cansado. Todo eu estou cansado. O negro das mãos sobre os olhos nem sequer é negro. Devo estar louco. O negro não é negro e o branco é azul. E estou tão cansado. Cansado de esfregar a cara e ferir os dedos.


Reparo em mim. Deambulei novamente contra a casa-de-banho num passeio nocturno. Pior que sonâmbulo, sou um dormente consciente à procura do sono. Apago a luz e cruzo o negro pouco negro na expectativa de tropeçar na cama a qualquer instante.

Do Vidro do Autocarro em Movimento.

O aspecto enjaulado da vida faz-me, certos dias, sonhar para longe daqui. A ordem e o som recorrente dos carros e das casas, iguais de rua para rua, o atropelar cingido das pessoas nos passeios. Tudo isso me agasta. Daria por mim num outro tempo se sussurrasse devagar os desejos secretos que me obrigo a ter. Folgaria em viver numa era mais fácil, onde o bem era heróico e o mal era incansável, onde o ferro matava a sede no sangue dos demais e onde as almas tinham o valor da poeira nos caminhos desérticos até à povoação mais próxima. Tão mais fácil. Vaguear os continentes de espada bem apertada na mão com os olhos cansados de tanta destruição e o coração galopante com o fulgor de viver. A vida seria tão mais valiosa se dependesse do nosso instinto guerreiro. O amor seria puro se nascesse em solo infértil. Às vezes tenho quase a certeza que não nasci aqui. Saí na paragem errada.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Hipnose Verde.

Dá que pensar.
Um beijo é apenas um beijo.
As músicas, oiço-as todas e aprecio.
É-me fácil encontrar beleza no mundo.
Difícil é viver.
Viver quando um beijo é só um beijo.
Quando as músicas não ardem nem arrepiam.
Se é fácil pensar,
É-me difícil sentir.
Não sei onde fica o coração.
Se o perdi.
Se ficou para trás.
Tiraram-mo sem dar por isso?
Deixo de ouvir-lhe o bater.
E quero tanto voltar.
Desencontrei-me quando entrei no jardim.
Ergui este labirinto de arbustos altos.
Esqueci o mapa.
Esqueci-me.

Olho para cima, para o céu tapado de verde, sentado no banco de jardim que calhou. Passo a mão pelo pescoço dorido de escrever e deixo-me vencer pela curiosidade. Afago o peito em alívio, ao sentir um palpitar saudável e acelerado pelo sobressalto que é entrar no mais profundo de mim.

Bom Dia, Enfim.

Sem dar por isso, vivi mais uma ou duas semanas. Doente, espalhado pela casa como roupa suja, faltei ao trabalho e à luz do dia para lá dos limites da sanidade. Quando saí, se saí mesmo, esquecera a dor do Sol nos olhos, o amornar da pele debaixo do tecido do casaco negro e as bruscas mudanças de cor de um céu povoado de nuvens disformes. Tentei escrever sem saber, tentei encontrar texto nas folhas vazias do meu corpo fraco mas em momento algum sucedi. A escuridão da casa acentua-se quando os dias aquecem na rua. Baixo sempre as persianas, baixo-as sempre mais para sofrer-me em paz, para curar-me a sós com as drogas e o corpo, as drogas e o corpo e o nada e o raro faiscar das cores na televisão acesa por impulso. Sem querer, tranquei-me em casa com todo o mal. As dores, a solidão, a tosse, as memórias e a garganta entupida. Pesadelos de comprimido na mão, ilusões com sabor a xarope e recordações febris. A febre leva-nos sempre para onde não devíamos voltar. Nunca me soube tão bem sair, se saí mesmo. O Sol queima sempre mais alto que os gritos do passado. O dia está sempre ridiculamente belo quando voltamos as costas às enfermidades da existência.