segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Catarse.

Acordar e sentir nada. Duvidar. Olhar para as fotografias, ler as cartas e invocar memórias e sentir nada. Duvidar. Tomar banho, vestir a roupa, sair de casa e chegar ao trabalho sem sentir nada. Duvidar. Almoçar, falar do banal, voltar ao trabalho sem pensar, sem sentir nada. Duvidar. Chegar a casa pelo fim da tarde sem a angústia e a dor. Jantar, ler, ver televisão, escrever, beber, comer, andar, nadar, voar, beijar, tocar, gritar, correr e saltar sem sentir nada. Aceitar. Lavar os dentes, vestir o pijama e adormecer sem sentir nada. Sonhar com nada. Viver.

Paciência.

As luzes morrem para a banda tocar. São demasiados para distinguir na escuridão e fazem soar todos os instrumentos da fanfarra. A música é festiva e arrasta sorrisos por onde passa, levanta pessoas dos seus assentos para dançar a salvo da lógica, deixar o corpo dançar por si.
Observo de uma mesa distante, contagiado pela animação de um simples sopro ou dedilhar ordenado enquanto bato com os dedos no vidro do copo ao compasso. Detenho-me num corpo de mulher intermitente por entre outros que baloiçam ao ritmo e forço-me a compreendê-lo, como se compreende uma rosa pela manhã, embaciada pelo sono. O cabelo negro espalha-se pela face e a franja vincada protege os olhos do clarão da vida. Toda ela se movimenta feita de júbilo. Apetece-me tê-la, levá-la pela mão, perguntar-lhe o nome e sorrir, beber a alegria dos seus lábios, provar o riso nos seus olhos, afogar-me no idílio do seu corpo e adormecer no cheiro da pele húmida ao fim da Noite. Não saberia sequer amar esta aparição. Os seios seriam maduros demais ao meu toque, as roupas levariam demasiado tempo a cair no chão, os beijos seriam desajeitados e a língua andaria perdida e esquecida. Os meus dedos não teriam Norte numa mulher assim. Apetece-me pedir-lhe paciência e o coração.

No virar da música volta a sentar-se e nota-me pendurado em si. Um olhar curioso e enorme. Um sorriso. Nunca saberei o seu nome. Nunca será minha. Sorrio timidamente e desvio o olhar para o copo. Obrigado por tudo, gentil menina.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Sobre Colmatar a Solidão Com Novos Interesses.

O mal de estar curado é o vício de adoecer.

O meu mal é estar curado e ter receio de morrer.

O Motivo.

Não é segredo que algo mudou. O mistério pende talvez nas razões óbvias para o sucedido. Amores sucedem-se, paixões tantas mais e o processo é redundante, não o nego. Já tive os meus, as minhas e sempre sobrevivi e insisti no que sou, mas... Nada me preparou para o último amor, para a paixão que só existe em livros e em segredos. Nunca me soube tão bem amar, nunca um corpo me soou tão inevitável, nunca os beijos saíram tão bem e nunca ninguém me pareceu melhor. Tudo isso morreu. E dos despojos nunca sofri tanto, e das memórias nunca me soube tão bem odiar. Dos retalhos anestesiados sobrou a certeza do reprovável e o orgulho da condenação. Hoje de nada me servem, hoje são lixo no meu sótão de que jamais abdicarei.

Concluo sem cumprir o título. Não há motivo, apenas eu.


Vôo 124 - Nápoles/Lisboa.

Ando perdido entre as nuvens, cansado desta vontade de não ter vontade de aparecer. Costumam perguntar por mim, pelo que faço, com quem faço, para onde vou, com quem pretendo ir e nunca estou lá para responder porque nunca estou onde pensam que estou. Considero-me sortudo por não ser capturado na rede da curiosidade alheia, escapando vezes sem fim da humilhação de não ter respostas para dar, respostas que só eu saberei dar, que deveria saber dar. Mas não sei.
É rara a altura do dia em que me reconheço. Esta coisa de nascer para amar começa finalmente a fazer sentido. Desde que me é possível lembrar que fui um cretino intenso e esculpido para as emoções fortes da paixão, do amor, da rejeição e do ódio visceral. Sempre entrei inteiro na vida das pessoas, trazendo todas as malas e bagagens comigo, não deixando uma única peça de mim a salvo e sempre sofri com isso, sempre lucrei com isso. As maiores devastações e as melhores sensações. Nunca vivi por menos nem nunca sequer o permiti.

Até agora.

Agora não existe nada. Não existo em nada. Podem conhecer-me, apertar-me a mão e sentir e carne e o músculo a apertar de volta, podem beijar-me o rosto e sentir os meus lábios saudáveis na pele macia mas eu simplesmente não estou lá. Não estive lá. Duvido que alguma vez esteja lá. Tolero tudo. Admiro nada. Guardo o amor inalterado pela família e escassos amigos numa porção resgatada de antes, ténue e temo que única prova da minha humanidade. Não tenho rancores ou ódios a fazer-me cismar. O que me assusta hoje é esta resignação, esta intimidade com o conforto de não correr riscos, de não trespassar a mão pela escuridão, de não querer voltar a mim. Tenho saudades de mim. Vou para casa.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Paris - Chambre 66.

As notícias são sempre boas nos jornais que não perco tempo a ler. A língua entedia-me e saber pouco dela causa-me orgulho. As mulheres são lindas e sorriem, falam e respondo-lhes com sotaque perfeito, pleno de hipocrisia. Confesso-me pouco depois. Sorrio-lhes em português. Encaro os monumentos com naturalidade depois de uma vida inteira repleta de fotografias de todos os ângulos possíveis. Ao vivo é sempre melhor. Imaginar os anos e as máquinas fotográficas que por ali passaram desde que os guias de viagem se ousaram a nascer. Passeio fleumático pela beleza antiga que me rodeia, como se a beleza sempre a fosse e o passeio sempre o tivesse sido pelo mesmo caminho.

Deserto Com Vista Para o Dilúvio.

O desabar das águas sobre os telhados e os vidros dos carros soa a momentos perdidos a olhar para a chuva. O batente e premente atiçar dos metais ao som translúcido da rua distorcida por raios turvos, toscos e trôpegos que se atropelam na corrida até ao chão só vinca a irrelevância da cidade. Debaixo de vendaval, tornam-se difíceis de distinguir. Perco-lhes o nome, diluído. O mero facto de quedar-me, tal qual pedaço de gente incrédula, perante a maior janela da casa a observar o contínuo desfigurar das correntes de lama aguada que descem até ao fim da estrada que ainda não percorri até ao fim faz-me estar um pouco mais próximo. Discorro a simplicidade da tempestade que se desenha lá fora ansiando que alguma humidade desfasada nas vidraças escorra por entre as areias do deserto que me separa do mundo. Lambo os lábios e procuro a última gota de vida que provei, relembro as partes melhores de ser quem fui. Acentua-se a sede.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Nova Iorque - Room 64.

Multidões a que nunca pensei pertencer. Aglomerados de pessoas que só os filmes parecem engrandecer o suficiente para nos dar um pequeno gosto da realidade. O caos ordeiro da espera dos semáforos e as vozes ocultas e difusas que uivam nos ouvidos como vento assustado. Tanta, tanta coisa. Luzes eternas que não nos deixam escurecer, vozes acesas que não nos deixam ouvir. Tanta, tanta gente e tão pouco para levar. Não aprendo senão a marchar ao compasso da avenida. Mal me sinto o pensar.

Nunca me senti tão só.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Munique - Zimmer 63.

Vivo mais cidades que dias, conheço quartos de hotel demais e as vistas nunca são iguais quando acordo pela manhã. Ando atrás de mim pelo mundo fora, fugindo da fraqueza que outrora me destruiu. Voltarei quando ninguém lembrar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Encontros Casuais.

Encontro-me de vez em quando comigo num espelho qualquer. Sorrio com a cumplicidade que ainda me prende a este corpo e olho-me nos olhos como já não se olha. O espectro que sou toma cor no brilho esverdeado dos meus olhos quando me fixo neles de forma doentia. Vejo-lhe a forma. Quase que me vejo, quase que me descubro. Nunca me conheço. Ainda escondo segredos de mim.

O Planeta Vazio.

Há dias em que o planeta está vazio. A luz do Sol incide na calçada vã da manhã, agitada pelo vento e pelas vozes das pessoas que ficaram para trás mas tudo foi abandonado pela lógica que me move. Falamos mas ninguém ouve, perguntamos e ninguém responde, tocamos mas não sentimos outra pele senão a nossa. Há horas em que o planeta está vazio, em que tudo o resto se alivia da realidade por esse rasgo de tempo. Às vezes estou sozinho no planeta e converso com o reflexo nas águas e com a sombra no passeio, dou voltas pela cidade, defronte das lojas deixadas ao acaso e dos semáforos que avermelham para o nada até ao regresso das coisas. Não há paz maior do que perder o medo. Sem medo sou mais do que só uma pessoa e menos do que algo mais que uma pessoa. Sereno no mundo, nos dias em que o planeta está vazio, não preciso de ser notado ou amado. Apenas sou. Um ser destemido à espera do mundo num banco de jardim.