segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Antigo Sofrimento, Novo Ornato Vulcânico.

Colecciono artefactos de anos e vidas passados na mente. O mais recente nasceu das correntes de lava que inundaram as galerias de ódio. Delas sobrou um aglomerado de rocha morta, cinzenta, com cheiro a lume e a passado que hoje figura na sala de estar do meu pensamento.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Tremor de Mais.

Não se trata de força. Não. Antes uma total ausência de medo. Da vida, da morte, do futuro, do presente e das cores do céu. Jamais me senti tão destemido, raramente tive tão pouco a perder. O meu acto de coragem é deixar-me tocar outra vez. A minha cobardia é não estender o braço, entregá-lo à Noite. Não se trata de força, não. É só um tremor de mais.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Frase Passível de Transmitir de Forma Ligeiramente Perceptível o Estado do Espírito do Autor.

Estou no parque de estacionamento da vida, perdido da minha viatura, sem memória para lembrar onde a deixei, sem força para perguntar onde está e com medo de já não saber conduzir.

Mulheres.

Fico longos momentos a observar a beleza inegável das mulheres. Passo horas, se puder, a perceber a certeza de cada traço e a matiz de cada tom esverdeado ou castanho dos olhos que usam como jóias permanentes. Não há beleza como a das mulheres. Admiro cada sorriso, cada maçã de rosto rosada e cada braço pintado de alabastro até às pontas dos dedos finos com unhas de cristal, cada pedaço de cabelo liso que me escorreria por entre os dedos se o tentasse guardar. Admiro o corpo e a linguagem corporal, a sensualidade e o desejo que provocam. É inevitável desejar uma mulher. Desejamos sempre o que é belo. Nada é mais belo do que uma mulher.

56.

Vasculho os meus pensamentos com frequência, ultimamente, em busca de algo que possa usar para molhar a caneta de palavras. Desarrumo memórias e penduro imagens nos locais errados na ânsia de ser eloquente. Ausculto o coração, oiço-lhe o falar calmo e os sentimentos à vez. Nada me fascina. Tudo se esbate na monotonia deste ser sereno sem serenar. As matérias em que sempre fui fluente perderam, todas elas, o sentido e a razão de ser. É uma perda de tempo escrever sobre ódio e irrelevante escrever sobre amor. Não há paixão que me alimente nem boca para se alimentar.

Hoje sou, mais do que nunca, um espectador dos sentimentos alheios. Um calculista das sensações. Um cobarde sensorial. Um amante incapacitado.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

55.

Falar com as partes do corpo que ainda não adormeceram ajuda-me a esperar o sono. Os olhos sonham e os dedos palpitam sobre o teclado. Estou a dormir e ainda assim escrevo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Outro Acordar.

O corpo tende a desfalecer no conforto do cinema tardio. Acordo sempre noutro mundo, de sobressalto, sem saber da cama vazia e dos corredores orfãos. Quase que sinto alguém. Depois percebo-me e demoro a tropeçar até ao quarto. É o sono que me enche a casa.

Instante.

De olhos na televisão, mãos sobre o peito, pés descalços apoiados na mesa de sala, pernas cruzadas e suspensas sobre o copo vazio com cheiro a álcool. Braços lânguidos, cansados para os ombros do sofá, cabeça descaída para o lado esquerdo e os lábios secos e juntos fechando a boca calada. A luz escassa e o filme já visto. O chão frio e o pijama quente. O sono alerta. A quietude e a sede, a fome e a serenidade.

Um Início no Fim.

Um novo e vazio começo, como todos os começos são.

Nunca, até onde a minha memória se prolonga, me lembro de um início de ano como este. Nunca senti tamanha diferença de um dia para outro, nunca as coisas pareceram tão afastadas por apenas um minuto, nunca antes senti um ano novo deveras novo e não apenas a continuação do funesto que ficara entalado no fim do calendário.


Cores.

Sonho com cores antes de acordar no cinzento. Procuro a paleta com o terror de pintar outro quadro nefasto como os que enchem a sala de estar do meu ser. A sala de ser do meu estar. Ainda assim, terror pela mão, disponho-me. Enfrento o dia com a estúpida bravura recuperada e o atónito olhar de quem procura mas não se esforça, de quem procura na esperança de não encontrar, de quem se destina a encontrar à primeira pincelada de desistência. Gosto de acreditar que me apetece procurar.

Prostrado no sofá.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Problemas Sensoriais.

Sinto pouco, como uma criança assustada. No degrau à porta do prédio, sentado, tiro uma luva e deixo o frio beijar-me a mão. Mas pouco, só até sentir-lhe o gelo a nascer-lhe na pele. Depois volto a calçar a luva. A chávena da manhã cheia de leite quente fica o tempo suficiente na minha mão para ouvir o calor a alastrar pelas imperfeições da pele avermelhada, avisando a queimadura. Depois pouso-a e deixo arrefecer.

Esta maneira medíocre de sentir é-me desconfortável. Assemelho-me em excesso a um Ricardo Reis na neve. Preciso de evoluir, de sentir mais, de gelar e de queimar, de apertar a vida de novo como se fosse a primeira vez.

Serei paciente.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Problemas de Memória.

Morreram demasiadas pessoas, nasceram demasiadas Luas, brilharam tantas estrelas, apodreceram frutos nas árvores desde que me senti como hoje. Caíram paredes, destruíram-se continentes e afundaram-se ilhas desde que me senti assim. Os espasmos planetários sucederam-se e água dos oceanos sacudiu a vida de multidões até voltar a sentir-me assim.

Estou em paz. Parece tudo tão longe. A dor grita tão baixo que mal se ouve, o ódio cansou-se e o amor respirou de alívio. Não sei se era isto antes de tudo mas sei que sou o melhor que me lembro de ser. Tal é a paz que me dificulta a escrita, presa numa cãibra de obscuridade e ânsias de destruição. Esqueci-me de escrever sobre coisas boas. Esqueci-me da cor do brilho e do sabor da beleza, esqueci-me das palavras belas.

Preciso de recordar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Marfim.

Pelo átrio do hotel aceitam-me o sobretudo aborrecido de estar em casa. Ajeito o casaco e penduro a gravata de forma adequada no aprumo desajeitado do cachecol. As mãos mal frias pelo curto caminho desde casa dependuram-se dos ombros enquanto piso a alcatifa morna em direcção ao lounge de onde uma música amena ressoa. O balcão do bar impecavelmente limpo reflecte o meu pedido com um eco incómodo que parece acordar o barman hipnótico com o seu próprio limpar de copos.

Alguém toca piano.

Num confortável sofá vermelho seguro a bebida sem interesse em bebê-la, como se segura uma banalidade na ponta da língua. Olho em torno do ambiente vazio da sala e quedo-me no móvel negro que emite som de forma harmoniosa no canto oposto ao meu. O enorme piano de cauda oculta a face que maneja o teclado. Tento percebê-la no rosto de um homem idoso que se senta de frente para o acontecimento, claramente agradado com o som e com o quadro. Jovial, deixo pender os olhos para o chão e por entre os robustos pés de madeira escura descobrem-se duas finas e brancas pernas que terminam em pés que viajaram de livros de princesas, dobrados pela vontade do salto alto que os segura e separa do chão. Do colo escorre um resto de vestido verde, daquele verde que parece sempre ideal numa imagem destas. Toca um nocturno triste, talvez de Chopin, talvez de Beethoven. Convence-me de que está triste sem emitir uma palavra. Toca como se falasse comigo. Levanto-me do sofá e deixo o copo quase cheio na mesa de chá.

Os passos lentos aligeiram-se na alcatifa vermelha.

O cabelo louro apanhado com desvelo quase se escapa para a frente dos enormes olhos verdes que olham para os dedos, para mim e para o nada sem ordem aparente. As alças verdes assentam no fim dos ombros como se sugerissem um embaraço e o decote perde-se na brancura da pele dos seios perfeitamente acomodados. Os dedos trémulos palpitam sobre as teclas com a certeza das palavras que canta. Toda ela resplandece sob estas luzes. O ouro nos cabelos, o marfim na pele. Tem um olhar mortal, dos que nos levam a alma se deixarmos. Não o evito. Descreve-me todos os seus demónios com as notas que pressiona, conta-me tudo sobre si sem sequer abrir a boca. Estarreço-me face a tanta ternura. Aterro-me e aproximo-me.

Caminho ao compasso das últimas notas de Bach.

Ambos sorrimos. O meu coração agradece. O sofá vermelho tem lugar para dois. Continuamos a conversa na língua inglesa ao som da Noite.

48.

Desfaço as malas para dentro das gavetas e sento-me na cozinha a ler o jornal estrangeiro. Voltei. Vim atrás do ano e perdi a corrida para a neve.
Nos dias, nos instantes que passei em casa, na viagem de regresso, em todo este trajecto de volta ao princípio tentei encontrar algo para escrever, algo que pudesse assentir eloquentemente aquilo que vivo hoje, algo que contasse superficialmente o que sou. Nada surgiu. Nada é digno, nada me fere nem nada me alegra o suficiente para querer escrevê-lo. Sou isto. Os mesmo ódios, os mesmos amores, nenhum alento ou paixão, raros prazeres e escassos sorrisos. Não me sinto mal nem me sinto bem. Estou melhor que antes e pior que amanhã.

A cidade está coberta de gelo e eu também.