terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Terra Natal.

Aproveitei a Noite para fugir delicadamente das festas e do inebriante cheiro a açúcar que paira no ar. Vesti um casaco menos pesado que o habitual, deixei as luvas em cima da cómoda e enrolei o cachecol fleumático no pescoço. Desci o quarto andar pelas escadas, como fazia antes, quando as descia todos os dias e percorri o corredor estreito que termina na porta de entrada do prédio. Abri a porta sonoramente e saí.

Está uma Noite como todas as noites deviam estar. Impávida e fresca, escura e pacífica, de céu nítido e estrelas atentas. Se as noites de Verão fossem assim os dias de Verão seriam muito mais saborosos. Desci a passagem à minha direita até umas escadas largas e baixas, das que podemos descer em passadas largas, enquanto me deixei absorver pelo tom alaranjado dos candeeiros que alumiam o caminho. Nas paredes vivem graffittis, quase todos filhos de pobre talento, em cores demasiado escuras para que as possa distinguir a esta hora. Já na rua principal avista-se o rio pintado de negro e os pontos luminosos que encabeçam o porto da cidade enquanto os latões do lixo vomitam sacos por estarem cheios demais à minha esquerda. Levo as mãos nos bolsos mas nem tenho frio.
Caminho à medida que descrevo os sítios que fizeram parte da minha vida desde que sou vida e pela primeira vez desde há demasiado tempo sou atingido por uma noção de beleza. A beleza do que temos por garantido no dia-a-dia. A beleza que está sempre à nossa volta mesmo que sejamos demasiado insensíveis para senti-la. Habitualmente seria o tipo de pessoa que preza toda e qualquer beleza que cruze o seu caminho, o tipo de pessoa capaz de sorrir perante aquele branco difícil de explicar quando o céu o enverga em dias de chuva, um branco triste, ou o magnífico quadro pintado pelos dedos da natureza com o rio e a península banhados num brilho matinal.

Começo a sentir um pouco mais de humanidade no olhar.

As luzes intermitentes que palpitam cores variadas nas janelas das pessoas tornam as ruas vivas quando passo por elas. Toda esta quadra que desprezo desde a morte da minha infância, anos atrás, traz contudo os seus momentos de prazer culpado, momentâneo, que sinto nas pontas dos dedos. O ambiente na baixa decorada de vermelho, os sorrisos, mesmo que falsos, nos rostos das pessoas, a vontade de ser melhor e desejar felicidades a toda a gente, a expressão invejável de inocência nos olhos da minha irmã, doce criança no mundo das coisas mais lindas. Instantes em que a hipocrisia e o capitalismo da época parecem não importar. Por isso tolero o Natal.

Na avenida de bares junto ao rio, chegado da rua que sobe para minha casa, reencontro amigos e conhecidos que me estendem mãos e uma cadeira. Sento-me, peço um café e quedo-me no olhar verde e intenso da mesa da frente que estimula a minha curiosidade. Oiço a conversa, rio, respondo, pergunto, aqueço os dedos na chávena e tento ler as histórias que esse olhar tem para me contar numa conversa paralela, a dois, onde o silêncio simplesmente não pára de falar. Está uma Noite como todas as outras deviam estar.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Nas Nuvens.

Vou de comboio pelo atalho do céu. Regresso a casa nas asas de um pássaro postiço. Mal me habituo a este sopro nos ouvidos e a indiferença das nuvens à minha passagem ainda me confunde. Fico junto à janela, como na viagem anterior, ao lado de um homem muito velho que se exprime em inglês mal desenhado. Debruço-me sobre a mesa que se desdobra à minha frente, com os dedos frios e a caneta morna a derreter a folha vazia. A minha verdade é imperceptível à curiosidade do velho estrangeiro que me sorri de doce ignorância.
Volto a casa para o funeral do ano que sufoca nos seus próprios derradeiros dias, de malas cheias de lembranças e solidão que o Natal promete sempre amparar. É Natal, ninguém nos deixa ficar mal. Colaboro com a hipocrisia e forço-me a acreditar no que acabei de escrever.


Já o frio me parece mais quente. Já o céu tem outra cor. Estou perto de onde vim.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Rasgos.

Ainda sinto o corpo, nas alturas negras do dia, rasgado por garras de ódio que me percorrem. Um ódio cego, uma revolta muda que me atinge, um rancor sem nome que sobrou de algo. Vem-me o desejo de vingança e sorvo uma força saborosa do sangue que sinto escorrer nos lábios. Os músculos contraem-se e o pensamento vibra em caras e lugares. Todo um ritual que se repete demasiado e termina sempre de igual maneira. Não faço nada, não digo nada, não berro sequer para o ar o ardor que vai dentro de mim. É uma ira lacónica, esta que guardo com as outras dos dias, das semanas e meses anteriores. É um ódio silencioso que se recusa a sair daqui. É o negrume mais volátil que insisto em empilhar cá por dentro enquanto o espaço o permitir.

Preciso de gritar.

Difuso no Vapor.

Os minutos param e o tempo espera. Passo um olhar longo e demorado a perceber a inconstância dos vapores da água quente que se elevam acima da minha alma nua enquanto pressiono o gatilho da água disparada contra o peito. Perco-me nas coisas boas de um duche de Inverno.
Por vezes, pelas ruas brancas, caminho para o trabalho com o banho do final de dia na mente. Ás vezes é para isso que trabalho, muito mais que dinheiro ou satisfação profissional, trabalho muitos dias para a recompensa que me aguarda em casa. Se neva a caminho de casa, sorrio. Se o frio penetra a pele e beija o meu rosto de uma forma que ainda não consegui tolerar, fico feliz. Sei que a água escalda em minha casa, como escalda na minha terra, e aí as diferenças desfazem-se. O mundo opaco dos mosaicos embaciados que encontro no fim do dia podia ser uma casa de banho qualquer, numa cidade qualquer, num qualquer país.
Assumo este meu egoísmo diário, esta minha indiferença quanto à água que gasto ou o quanto me custa aquecê-la de tal forma. Assumo com prazer este raro prazer. Pago-o com prazer.
O corpo molhado esquece, fica mais leve. As carícias da água escorrente massajam aquilo que resta do meu ser cansado, dão-me paz e relembram-me a importância do esquecimento. O calor que emana sobre mim conforta-me como já nada o faz, como um útero para onde nunca consegui regressar, um abrigo para uma tempestade que nunca pára de tormentar, uma tempestade que é viver. Minutos que valem dias, gotas quentes que valem ouro, um banho que vale tudo.

Fecha-se a torneira, volta-se ao de sempre. Alcanço uma toalha com uma história para contar. Escrevo-a à luz da lareira. Até amanhã.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ex-Caçador de Paixões.

Não tenho armas para caçar. Perdi-as pelo caminho da desgraça em que me tornei. Criei-me um vago mirone nos safaris desenrolados perante mim, sentado na mesa frente com vista para os espécimes. Pelos dias enfrento de peito aberto todos os olhares aguçados que consigo tomar neste corpo, como se a esperança secreta de um tiro certeiro na minha miséria fosse a mera razão da minha persistência neste mundo. O meu próprio olhar, sei-o, não é senão uma ténue lanterna acesa para o infinito, marcando a presença de uma alma intermitente no ser e no lugar. Trago um olhar demasiado sequioso e distante para perceber o sabor de alguém.

No escritório onde trabalho, não raras vezes, fitam-me dois restos do que fora divino nesta vida, pintados de verde do céu, como não o há na terra, pousados num altar de feições desumanamente perfeitas, sob o sorriso que a Natureza trouxe quando nasceu. E estagno. Os meus focos apagados fixam-na e a beleza incomoda-me. Incomoda-me reconhecê-la e perceber o quanto me sinto diminuído na sua presença. É como se tivesse medo daquilo que preciso.
As palavras faltam-me, quando outrora corriam num rio inesgotável. A firmeza no discurso abandonou-me. Os textos repetem-se e o tédio que retiro da minha voz sonolenta dá-me náuseas. Escrevo a mesma coisa de maneira semelhante. Sou tão fleumático que me adoento.
Sou um livro em branco. Um dia cinzento. Uma música demasiado longa. Uma voz imperceptível. Uma ode ao que ninguém quer.

Não tenho armas para caçar e olvido onde as deixei.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sessão da Noite. (pt.2)

Pelo frio estrangeiro que nunca se sente junto ao Atlântico, regressado do fim da película, de mãos enfiadas nos bolsos como pedaços de mobília que me pesam o andar, analiso o sucedido. O conforto da prática comum, de saber que muita gente vive assim, pelos olhos de outros, não me aquece o caminho germânico. A certeza do quanto me desinteressa toda e qualquer vida alheia, por outro lado, só torna mais inexplicável o que acabara de passar. Questiono-me, de nariz gelado, pela rua que se estende até à porta do prédio que me recebeu. De todas as vidas que podia escolher para viver, porquê aquela? Porquê a vida que mais desprezo e ignoro? Porquê estar duas horas perante um filme de qualidade questionável tentando perceber como seria viver noutra pele, numa pele com um destino diferente do meu, num corpo alentado pelo amor e não pelos músculos e os ossos e a força mecânica que rege tudo o que é vazio?

Na cozinha, sobretudo tombado sobre a cadeira e palavras despejadas pela mesa de forma desordeira. Por um instante atinge-me a gravidade da minha insignificância, no que isso está a causar-me. Nesse pequeno recorte de tempo e espaço tudo faz sentido. Procuro para além da realidade uma realidade que me satisfaça. Procuro dentro de mim quando me faltam as forças para encontrar. Nesse laivo de lucidez tudo se conjuga. Corro o perigo de perder-me dentro deste monstro que sou. Corro o risco de criar a minha própria e incessante sessão da noite. Num pequeno sopro de razão compreendo: Tenho de fazer algo. E só eu posso fazer algo. O meu destino é meu.
E depois a lucidez confunde-se com a brandura do candeeiro que acende o corredor e as questões esfumam-se como cera. Escorrem-me pela mente, quentes, e secam-me no coração. Não tenho respostas. Escondo algumas certezas.

Sessão da Noite. (pt.1)

Chego atrasado. Perdidos momentos perante o cardápio. Já a luz se foi dos topos das nossas cabeças, já só resta o ecrã e a escuridão. Procuro demais um sítio para sentar-me quando a sala está vazia, quase como se a dúvida viesse até nas coisas mais banais. Um homem na última fila e um casal rente à tela desmentem a minha solidão por segundos. Escolhi um filme qualquer, daqueles que se escolhem quando preferimos não saber o que vai surgir a seguir, quando escolhemos a surpresa, quão nefasta ela possa ser.
Observo tudo com um detalhe assustador. As fraquezas no filme, as impurezas do rolo e a forma como o clarão das histórias incide nos lugares vazios à minha frente. Absorvo o que me rodeia com uma sede inquietante, e no entanto não estou lá. E se me perguntarem saberei contar o enredo com todos os pormenores sórdidos e todos os beijos roubados, todas as traições imperdoáveis e todos os litros de sangue derramado. Se me perguntarem terei opinião crítica sobre este filme, como se me importasse que a minha crença seja pública. Saberei as personagens e os actores, os sítios, as músicas e a cor, mas não estive lá.

Ando a pensar na vida de outros, vulgar reflexo do desinteresse da minha própria. Mais que isso, dou por mim a chapinhar outras vidas para distrair-me da minha. E o filme roda, e eu não estou lá. Estou a viver a vida de outro. Não estou lá porque não sou eu, e eu é que escolhi a sessão da noite. Fui chafurdar nas memórias de outro, mas volto quando as luzes acenderem. Ascendi para um outro plano pessoal, todavia cairei no charco de mim antes que as letras passem até ao fim. Venho já.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Esperando o 781.

Vagueio pelas ruas que já conheço de cor, como se fossem minhas desde sempre, como se tivesse sido adoptado pela cidade. As árvores mortas, dependuradas nas mesmas esquinas, já não me surpreendem quando me cruzam o caminho. Sentado numa paragem de autocarro repleta de letras de outro idioma, escrevo estas palavras desinteressantes enquanto o tempo não decide passar, enquanto o tédio não me move. Tenho um certo sono, uma certa vontade de dormir. Um desejo às vezes perdido. Uma força que não se quer mostrar.