terça-feira, 30 de outubro de 2007

Nota.

Escrevo demasiado nas últimas folhas do infeliz caderno. Disserto, rasuro e risco demais. Depois, arranco-as e escrevo-as aqui, dando-lhes alguma espécie de sentido, se é que existe.

Fim de Tarde.

Passo apressado, descendo a rua que acaba na baixa. Sempre algo para fazer, sempre algo para fazer. Rua abaixo, rua abaixo e o tempo a não parar. Sigo o Sol pela queda do dia e encontro a Lua no fim da avenida. Cheia. Dourada. Acima das árvores do parque, pouco depois de aparecer. Reparo. A pressa deixa de ser por um momento. Na baixa, de passo apressado e olhos perdidos no céu, sempre algo para fazer, sempre um sítio para onde ir e hoje a Lua para seguir. Por momentos sinto ter um Norte.

Dias de Verão.

É no Outono que mais gosto dos dias de Verão. O mesmo azul colado ao céu, inebriante, a mesma luz inescapável que tinge a pele de brandura, o mesmo Sol palpitante que nos acende o olhar. Todo esse quadro rabiscado na frescura inevitável de Outubro, nos ventos assassinos de folhas castanhas que lhes beijam a pose caída da sua morte. Há uma brisa no ar, um rasto de árvores despidas pelo caminho, a Noite com mais ânsia de chegar. É no Outono que mais gosto dos dias de Verão.

Aniversário.

Tento entender o arrepio de frio que me alcança à entrada da casa de banho vazia e ampla do emprego de sempre. O cheiro de outros, o vago reflexo que encontro no espelho que mal sou, nada explica este assobio gelado que me alaga a fronte. De mãos no lavatório, frescas pelo mármore, de olhos no tecto e nas histórias antigas desta latrina afogo-me numa manhã cristalina. Cada passo, cada movimento que faça é recebido por uma torrente que me atravessa as roupas, faz-me nu, pintando tudo o que vejo da mesma cor. Cinzento. E um frio abrasador. O silêncio congelou. A manhã goteja-me na cabeça. Abrindo a porta da retrete do canto sofro o sopro que me acorda. Não é do dia que vem este frio, nem da latrina, muito menos o mármore que me regela. É só a idade a reclamar um pouco mais de mim.

sábado, 13 de outubro de 2007

Ferida.

Viajando de autocarro pensei. Ia sentado ao contrário do caminho, de costas para o motorista, perto daquilo que é a vida. Um caminho oposto ao que devia ser, onde só vemos o que se segue quando está em cima de nós e onde podemos ver o que já passou durante alguns momentos. Futuro e passado numa doce metáfora quotidiana. De olhos estagnados no vidro pensei em pessoas que passaram há pouco tempo pela minha janela, mas que foram. Pensei em quem foi tudo e hoje vale nada para mim.
Qual será a letra que escolheste para mim quando, por acaso ou desgraça, tens de tocar no maior tabu, no grande pecado da tua vida? Serei um novo Sr.X? Ou desci para um Z? Tens sequer coragem de dizer o meu nome? De pensá-lo? Eu sei o teu de cor. Saberei sempre. Prometo.
O talento para lembrar passeou desde sempre comigo. Sofro-o desde que me lembro. Ao acordar, pelas notícias que soam baixas pelo ecrã da televisão, recebo o gentil encosto do calendário, rastilho para esta doença . Recordo vários dias que mais ninguém recorda enquanto sorvo o leite fresco que escorre pelo copo ensonado, coisas que só a mim fazem sentido, só em mim possuem razão de estar.

Certos dias lembram-me pedaços de ti, do que sobrou de nós. Raros. Por vezes encontro dias nossos, mesmo não sabendo o que aconteceu neles, que expressões trazias ou que som faziam as tuas palavras. Aterra-me sofrer por algo que se esvai de mim. Já não conheço o teu cheiro, o teu olhar é-me imprevisível e o teu sabor lavou-se daqui. Como pessoa perdeste-te na minha memória. Hoje não passas de um dogma, razão plausível para este estado de alma, fonte de veneno que cruza o meu sangue, monumento eterno ao meu desgosto, travo amargo em qualquer dia quase doce. Hoje és isto. Algo em que possa esbanjar palavras num blog entediado. Hoje és só mais uma ferida.