sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Insídia Sob a Luz Fluorescente.

Os trovões gritam-me aos ouvidos a tempo de acordar do transe em que havia caído. Recolho-me e sento-me na cozinha a escrever estas palavras. O pendor dos dias arrasta-me para o fundo de mim. Passo demasiado tempo a escorregar em auto-análises e a escalar o declive atroz da minha indisponibilidade para sentir ao invés de pensar. Sou a maior emboscada que alguma vez alguém me fez. Bem... a segunda maior.

Tenho saudades de conseguir abrir os olhos para ver algo mais que nada na minha vida.

Cansa-me este ter de ser. Este não ser.


quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Credos na Trovoada.

As irradiações cinzentas e laranjas da Noite conjuram uma tempestade de final de Verão. Testemunho a certeza dos relâmpagos e o eterno pranto do depois. Aperto os nós dos dedos contra a mão vizinha, debruçado sobre o parapeito mais próximo. As luzes encobertas no manto espalham-se pelo céu e acendem-me a cidade durante aqueles breves instantes.
Falho na forma hipócrita como guardo a minha fé de um deus para gastá-la cegamente num amor. Na verdade sempre me banhei na arrogância dos agnósticos, ignorando a minha própria fraqueza, a forma inequívoca e inegável como consigo tornar-me devoto de um ser terreno. A minha lógica prejudica-me. Compreendo agora a necessidade das massas em entregar essa fé a algo abstracto, que nunca desiludirá, que nunca negará nem nunca trará actos de cobardia e fraqueza consigo. É tão fácil crer em nada, tão difícil crer num sorriso, num beijo ou numa palavra escrita.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Solto.

Percebo-me novamente. Hoje, passada a trágica farsa de amor que me reduziu a pedaços de alguém, sou mais extremoso. O mais doce dos amantes, o mais impiedoso dos agressores, o amigo mais devoto, o inimigo mais dedicado, o grande Amor, o grande Ódio.
Hoje sou muito, muito melhor e tanto, tanto pior.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Setembro.

O corpo moribundo do Verão arrasta-se pelo horizonte. Os melhores dias do ano anunciam-se com a brisa que cresce fria à medida que o Sol adormece um pouco mais nas horas que se sucedem.
De olhos no trabalho, manhã dormente, ébrio de luz, analiso a minha própria estagnação. Faço o que sempre fiz. Aguardo. Aguardo calmamente que algo aconteça. Estupidamente. Analiso a minha própria estupidez, de olhos no trabalho, tarde quente, entediado de trevas. Não se vive assim, parado. Muito menos se mata. Procuro de forma branda nas faces que se cruzam um sorriso, um olhar, uma palavra que valha a pena. Procuro de forma tão branda. Quase que me embaraço no modo superficial como procuro. Nem sei o que procuro mas apetece-me procurar. Mais que isto. Mais que eu. Mais que a vida morta que tenho encarnado. Não posso matar mas posso sufocar. Por isso procuro.
É o Outono que me vem salvar. Nas folhas perde-se a vida que absorvo como minha, os ventos preenchem-me como a um boneco inanimado que balança ao som da ressurreição, o silêncio das aves perdidas quebra-se com o grito de revolta que atravessa cidades e o cinzento claro do céu condiz com o delapidar final da minha estátua de ira granítica. Levo-a comigo para sempre, peso inesquecível que nunca quis trazer. O imperdoável nunca é fácil de carregar.

Na Noite fresca, um fechar de olhos ilude o mais crédulo. Quase Outono. Na Noite fresca, procuro o melhor de mim para então procurar.