segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Fa(r)dos.

Todos temos, poucos ouvimos.
Muitos carregam, menos os suportam.
Por vezes pesam demais,
Outras vezes cantam-nos baixinho.
Cada um tem o seu e eu carrego o meu.
Dorme bem com o teu,
Se o conseguires arrastar.
Duvido que oiças muito,
Duvido mais que o queiras cantar.


.

O meu túmulo de pedra estilhaça. O meu corpo adormecido sofre espasmos de vida e faz ruir as correntes que me envolvem à muralha de mim. Aperto os dedos com tanta força que o chão treme. Acordei com o olhar mais terno para o Mundo, com a vontade mais pura de devastar o meu passado recente com um simples gesto. Um pequeno acenar de sobrancelha para detonar as fundações do Amor envenenado que bebi até à última gota. Um último sorriso no funeral dos meus males. O meu trono de pedra estilhaça e o meu coração remendado a linhas de ódio bombeia sangue demais, depressa demais para este corpo pouco habituado a viver, como se a dormência se estivesse a tornar numa comichão, num calor insuportável que me incita a palpitar. O meu cérebro reacende-se, reencontra-se e formula planos. Sentimentos antigos e pensamentos novos. Um primeiro sorriso perante a revolução. Tanta a força com que aperto os dedos que sangro as palmas das mãos. O sangue ferve para o chão como vindo de uma fornalha que nunca se apagou realmente.


Ao Relento.

Dá-me um pouco mais dessa brisa que se enrola nestes braços cansados tão depressa como desliza sobre esta rua desamparada de gente. Enche-me o peito de ventos que os ventos meus perdi-os sem proveito numa cidade esquecida no fundo de um olhar. Segura-me a mão que nunca seguraram, sem temores e mentiras que nos asfixiem a cumplicidade. Sê minha cúmplice na pura verdade. Lembra-me como é estar sentado à beira-mar com a beleza e a sinceridade, sem pensar "e se depois?", sem chorar a cada despedida por julgar sempre ser a última. Aperta-me contra uma árvore à saída do jardim com as tuas palavras inaudíveis que escorrem sempre devagar para dentro de mim. Faz-me esquecer, minha Noite.
As luzes e os focos repetem-se, como em tantas Noites que nos seguiram os passos secretos e os beijos proibidos, confirmando a expressão culpada que o céu negro apresenta quando o observo estagnadamente. Podias ter feito algo, podias ter evitado tudo isto, podias ter sido Noite por uma Noite mas preferiste ser cúmplice da farsa que engoliu tudo o que foi a minha vida. E agora só restas Tu, minha Noite. Deves-me uma sombra ao fundo da rua, mereço-te um corpo de mulher na minha cama, subornada pelo inevitável do meu olhar que tivera a profundidade das eras até transbordar de desgosto. Deves-me muito, minha frágil parceira.

Dá-me mais dessa brisa porque eu preciso de arrefecer.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Pesadelo.

Uma igreja repleta de pessoas e incerteza. A música dando o compasso da dúvida. O noivo, cego, vestido a rigor, de ignorante e complacente. As damas de honor, quase todas cegas, com vestidos cor-de-rosa em tons de hipocrisia. Filas de cegos com sorrisos para dar e uma menina junto ao altar que não sorri por tanto saber olhar. As portas abrem-se com pompa e eis a noiva, branca a medíocre, casta e fraca, arrastando os pés do alto dos saltos ocultados pelo excesso de tecido clarinho que não consegue esconder a verdade. Numa igreja cheia de cegos, não é problema. O padre, cego por força divina, lê de cor a homilia do cinismo. A noiva anseia pela salvação da palavra santa. Mas é surda, e o pânico invade-a. Não sabe como aconteceu. Tenta falar e não consegue. Tenta mexer-se e não consegue. Lânguida, solta o "sim" sem se dar conta e ouve finalmente um "sim" do seu "amor". O padre, cego, invoca a presença de alguém que se oponha a tão nefasto matrimónio. Uma das damas de honor, que não sorrira uma única vez, estaca o valioso olhar na porta da igreja. Os cegos afinam os ouvidos de forma nervosa. A noiva teme o pior. Os segundos passam como eras. Nada acontece. Os olhos húmidos da dama desolada são o sentimento mais verdadeiro da cerimónia. Esperava algo melhor.
Nesse momento, e sem aviso, uma enorme tempestade desaba sobre o dia e lá fora, bem em frente à enorme porta da igreja, uma figura observa estaticamente a fachada do edifício, imóvel no meio do dilúvio que fez abater, com as mãos nos bolsos do sobretudo e a face encostada à penumbra da árvore que nascera muito antes de tudo. A água escorre-lhe pelas feições como se fossem de porcelana. Estava ali desde o início, vira a chegada dos cegos, do noivo cego e da noiva fraca e não deixou que alguém o visse. À saída da igreja, os noivos esforçam-se por ter um pedaço, um resíduo que seja para sorrir e desenham o melhor sorriso para a recepção de arroz e água esvoaçante. Aí, a figura que observava dá sinal de si. As feições de porcelana contorcem-se num sorriso esticado ao máximo e a pessoa irrompe num pranto de gargalhadas. Gargalhadas histéricas, de quem sabe a verdade. Gargalhadas de quem podia ter parado a humidade nos olhos da pequena dama. Todos os cegos ficam apavorados e o próprio noivo cego aperta a sua noiva com força para não a perder, ignorando que jamais isso poderá acontecer. Agora já não. A noiva, pela primeira vez naquele dia, deseja ser surda para não ter de ouvir as palavras escondidas naquele riso. A pequena dama... por entre a confusão, é a única que se senta num degrau, bebendo da chuva e observando a figura a afastar-se lentamente do local. Da sua vida. À distância, de costas, a figura confunde-se nos rasgos molhados e acena uma última vez.


Acordo sempre alagado em suores, com a última imagem da pequena dama de honor ao longe, cintilando em tons de rosa e tristeza. Acordo sempre como se tivesse estado tempo demais à chuva.

Se Sentir.

Indiferença tornou-se a palavra ideal para definir-me. Um poço.

A luz mortiça do candeeiro na entrada da sala alumia-me os passos até ao sofá. As pegadas que oiço ecoar no pavimento quebram a monotonia do silêncio, sublinham a ausência. Hoje não lhe darei importância.
Ignorante, sempre julguei ser impossível dobrar-me, mudar-me, fazer-me de novo durante assim tanto tempo. Sempre acreditei na minha própria inflexibilidade. E no entanto acomodo-me a este novo ser de forma perigosa, como se valesse a pena ser assim, ser sempre assim. Um novo e impávido eu. Não que seja fervoroso adepto desta minha faceta delapidada do gelo polar que me plantaram nos lábios, mas antes alguém cada vez mais ciente daquilo por que passou. Ciente daquilo que terá de levar consigo até ao fim.

Não desejo estas memórias ao meu mais odiado ser. Não as desejo, sequer. Um pedaço de felicidade extrema e efémera é algo que um homem jamais deveria sofrer. A minha ira para comigo ultrapassa a culpa de não ter sido alguém melhor, alguém com visão panorâmica e não o joguete de olhos fixos no amor. Jamais nos perdoarei. Movo-me com o arder desta fornalha que me consome as coisas boas até nada restar senão o carvão e as cinzas que se acumulam dentro deste corpo suado.
A intermitência da minha bondade atenta contra a minha sanidade. Recuso-me a ser um mero depósito de carvão, um saco de despojos de um capricho alheio. E em segredo... quando o Mundo dorme e eu repouso o corpo na cama árida, acontece algo surpreendente. Algo novo. Algo que me faz tremer de vida. Sinto. Sinto a frescura recém-nascida dos lençóis nas pontas dos meus dedos a dissolver-se lentamente no calor das minhas mãos. Sinto. E o meu coração acelera de Noite para Noite. A frieza da minha análise estorva-se vagarosamente com os empurrões de sangue que vai sofrendo. Os sentimentos afloram-se e as terminações nervosas testam-se uma a uma. Em segredo... transformo-me. Em segredo... tento voltar a ser eu.

Se sentir... aviso-me.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Fragilidades.

Passo a Noite na varanda, de braços enrolados em cima do parapeito, o queixo descaído por cima e os fios dos altifalantes enrolados nos dedos enquanto cada mp3 se vai sucedendo. Deixo ficar os olhos por cima do rio, observando os ferries e os focos mais distantes da península. As luzes alaranjadas da cidade irradiam-me de paz e o som abafado dos poucos carros que descem a ladeira onde moro impede-me de sentir a solidão que vive comigo, no quarto vazio ao lado do meu.

Hoje sinto-me só da forma mais assustadora que existe. Sinto-me só e não consigo ignorá-lo. A minha fraqueza dá-me estaladas na face com tamanha força que mal me consigo levantar. Estou fraco demais para lutar. Frágil como um enorme sobreiro, carregado de idade, cujas raízes morrem lentamente, desprendendo-o do chão. Um sopro estilhaçava-me em mil pedaços. Uma palavra mal interpretada que fosse, e eu deixaria de ser. Escondo-me nesta varanda a cismar como se cismar fosse o feito mais brilhante que tenho para dar ao mundo, como se cismando conseguisse reencontrar-me para além da raiva e da ira que me tenta, que me estende a mão com uma força sobrenatural dentro do bolso, pronta a ser minha. Tento ser mais do que isso, menos frágil do que isso. Por isso escondo-me na varanda. Por isso cismo.

Colecção de Olhares.

Bebendo um café com amigos que não ouvimos. Leio-lhes os lábios. Passo por entre cadeiras intermináveis para chegar ao balcão. As ruas, as esplanadas, os bares e os lugares de estacionamento contorcem-se de tão cheios. Os copos faltam e as garrafas estão vazias. Consome-se numa Noite de Agosto. Os casais nos cantinhos, os vozeirões dos grupinhos e a solidão dos sozinhos. Não restam mesas e sobram músicas que se cruzam de casa para casa, como se tudo fosse uma enorme distorção na minha mente. Depois apercebo-me que tudo é. Rio de mim próprio e acaricio a chávena com os lábios, molhando-os de café quente. Dissolvo-me na risada geral que alguém provocara com uma peripécia.
Olho estranhas nos olhos como se não tivesse nada a perder. Cada mulher interessante, insinuante ou simplesmente linda que toma parte do meu olhar. Depois apercebo-me que não tenho nada a perder. Olho como se estivesse pronto a sair de mim e encontrar refúgio nos cristais nocturnos que brilham à luz alaranjada da Estação. O meu corpo é uma carcaça movida a sangue, privado de paixão. A minha alma sonha em fugir daqui, da dor e do toque que ficou cravado na pele, dos cheiros que ainda surgem nos momentos leves de ser, deste cérebro e desta memória que não morre. Consome-me numa Noite de Agosto. A mesa ao canto vagou. Outro casal que a ocupe.
No fim, caminhando para casa, levo comigo o silêncio. O silêncio da rua tardia, a companhia una do som da minha própria respiração pesada enquanto subo uma ladeira. A jornada íngreme até ao conforto. Não guardo paixões mas colecciono olhares. A subida ainda é longa.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Reparações.

Raspo a pele queimada e as crostas negras que se acumularam, arranco e decepo as carnes ardidas pelo fim corrosivo do último amor. Não me via os tons rosados e sanguíneos há tanto tempo que julgava ser só isto, apenas um enorme pedaço de escaldo humano, ardido e desfeito na lareira de alguém. Há vida debaixo de tudo isto. Algo haverá debaixo de tudo isto.
Encontro membros mecânicos e peças metálicas para os lugares vazios e o cheiro a churrasco invade-me o pensamento enquanto soldo mais um pedaço de armadura a este corpo. A esta alma. Aperto com atilhos as vigas que tentam sustentar-me uma vez mais. Recrio-me de forma doentia. Conserto-me com tudo o que encontro na lixeira do meu dia.

Se ao menos encontrasse peças que servissem no meu coração... se ao menos tivesse um coração. Passo as Noites a escavar o meu peito à procura de ouro e estou cada dia mais pobre.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

(Algumas) Verdades Pós-Traumáticas.

.-. O Amor não foi feito para ser cortado em dois.

.-. Não há força numa pessoa que salve a fraqueza de outra. A fraqueza vence sempre.

.-. Mentiras do coração não são menos graves que mentiras da boca.

.-. "Fooled me once... shame on you. Fooled me twice..."

.-. Pior que ser cego, o Amor estupidifica. Vemos claramente mas somos estúpidos demais para aceitá-lo.

.-. A Paixão não vale tanto como um Amor politicamente correcto, socialmente aceite e com caboucos fundos e cheios de nada.

.-. O Amor não foi feito para ser cortado em dois.

Horas Livres.

Vez alguma conheci alguém que acreditasse na Fénix.

Passo horas a olhar para as minhas próprias cinzas à espera que algo aconteça.

Nunca acreditei em Deus.

Passo dias estagnado, confiante nos desígnios do amanhã.

Passo semanas a rir de mim mesmo, do ridículo que alcanço no meu próprio torpor.

Acredito pouco em mim.

Não me apetece sentir.

Não estou cá para procurar.

Não se procura aquilo que não se quer encontrar.

Que não se pode.

Passo meses a andar de forma trôpega pelas ruelas da vida desprovida de sentimentos coloridos.

Marioneta de mim mesmo.

Céu cinzento, preto, branco.

Um dia destes conquisto o Mundo.

Ou destruo-o.

Acredito que sim.

Até lá fico a olhar as minhas prórpias cinzas...

...À espera que algo aconteça.

A incerteza desenha-me um sorriso nos lábios.

Efeitos Secundários de Mim.

Devias ter lido até ao fim. O folheto alongava-se e os avisos sucediam-se. Não me leste até ao fim. Hoje a vitamina que fui dissolveu-se e desapareceu por completo do teu corpo (já nem deves recordar o meu cheiro). Restam-te as complicações que acarreto. O analgésico em cada beijo, o antibiótico no prazer e o sonífero nas palavras sussurradas trouxe-te um preço pesado. Por esta altura deves questionar-te diariamente acerca de quanto mais tempo terás de viver com tamanhos sintomas, por isso escrevo-te mesmo sabendo que não vais ler. Chamemos-lhe a minha pequena contrição por não ter feito um esforço para que assimilasses completamente os riscos antes do consumo.
A verdade é que os sintomas não acalmam, aclaram ou ganham leveza com o tempo. A verdade é que o tempo não é gentil e eu também deixei de o ser. A verdade é que estarei sempre entre a multidão. Sentado numa esplanada enquanto passas, na fila de trás do cinema, a cruzar-me à tua frente num corredor de hipermercado como um gato negro de olhos amarelos como a Noite. Serei sempre eu quando julgares ver-me e será sempre o meu cheiro que vais relembrar no ar. Serei sempre eu a ultrapassar-te em passo de corrida antes de uma esquina. Serás sempre tu a não conseguir ver-me completamente, dirigir-me a palavra que escondes debaixo da língua. Estarei sempre no reflexo do espelho, de cara colada à tua, pela manhã, quando a vida ainda é demasiado rápida. Nunca estarei ao teu lado quando fores tentada a olhar de soslaio. Do outro lado da rua, olhando-te do interior de um autocarro que passa de forma demasiado brusca, chamando-te por entre as mesas de um bar esquecido que só nós fizemos lembrar. Sempre eu, em cada instante. O rapaz que cantar canções de corações devastados no palco demasiado escuro, o guitarrista que fizer chorar a sua guitarra, o desenhador insuspeito que trocar retratos de turistas por tiras de banda desenhada. Eu, sem dúvida que serei eu. O próximo paciente, o trauma seguinte, o ferimento psicológico que se segue. Se estiveres atenta verás que sou eu, Doutora. O actor no filme, o concorrente no concurso, o plebeu nas notícias, o homem na televisão. Ó... sabes bem que serei eu.
Podia desejar-te as melhoras mas nunca aprendi a ser hipócrita. Não seria eu.