terça-feira, 31 de julho de 2007

Suores.

Desidrato. Observo o rio enquanto pairo por cima da passadeira nos intervalos dos meus próprios passos de corrida. Corro até o som da música deixar de ser, até o azul do céu palpitar noutras cores, enquanto houver água para me escorrer pelo rosto. Gosto de ficar assim. Exangue de forças, exangue de alma. E as pernas contorcem-se com espasmos. E os pulmões engolem ar quente demais. E a intermitência pesa nos ombros. E o pescoço que não páro de estalar. Perdem-se gotas de mim até não restar mais nada, até ficar tão vazio como sou na realidade. Até a alma fazer eco no meu corpo.
Sou como o dia. Vasto, árido, quente e sem esperanças de soprar uma brisa, uma leve aragem de empolgamento. Se parar congelo, se continuar... sublimo-me. Nunca estou tão perto de perder este corpo como aqui, esquecido numa rotação interminável de passos. Mas volta sempre, fico sempre com ele. E eu volto nos dias seguintes, sempre a tentar perder-me mais uma vez. Mas volto sempre, fico sempre onde estou, como se a passadeira não saísse do mesmo sítio. Depois apercebo-me da ilusão que me assoma. A passadeira é fixa... mas a minha ausência é flutuante. Estou cansado de cansar-me e não vivo sem cansar-me.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Um Último Acto de Coragem.

Certamente haverão, ao longo da História, intermináveis listas de pessoas mais bravas e valentes do que alguma vez fui. Tenho a certeza. Surgiu-me este facto enquanto caminhava para o trabalho, por entre a sombra gelada e o Sol escaldante da manhã de Verão. Olhando para trás, para a minha História, consigo determinar, apontar com o dedo no mapa como se de uma capital de país desconhecido se tratasse, o meu último acto de coragem.

As ruas mal preenchidas de gente ofuscam-me com a luz reflectida na calçada. Levanto o olhar e torno a baixá-lo ao encarar o intenso amarelo rastejante do Astro-rei acabado de nascer. Tive a coragem, não me lembro há quantos meses, de ficar sozinho. Fui capaz de abater o maior Amor da minha vida por não conseguir estar na presença do estado decrépito a que chegou. Tive a coragem de libertar-me de uma paixão moribunda. Fui capaz de tirar a vida ao que fora a minha vida nos anos passados. Disse adeus a tudo o que podia ter sido. Disse adeus à fraqueza que me deixou orfão de ser. Guardo agora a coragem para voltar costas à sepultura do melhor que alguma vez fui, enlaçada com todas as cartas de Amor e bilhetes que tirei de mim, agrafados entre sim numa última utilidade.

A manhã pesa-me sempre depois das Noites a vaguear pelos meus pensamentos. Não saio de casa mas viajo para cidades que estão longe do meu alcance, cidades onde os comboios deixaram de chegar.

domingo, 22 de julho de 2007

Intermitências.

Sento-me e lembro-me. Nos fins de tarde, depois do trabalho, sento-me no sofá à chegada a casa e lembro-me. Lembro-me da luz, das palavras rendidas e dos impulsos apaixonados. Lembro-me do desejo, lembro inúmeras coisas como se não tivessem sido por mim vividas. Lembro-me de ser algo mais. Vagamente.
A minha memória é, hoje, o que resta da minha humanidade, da minha identidade verdadeira, debaixo deste monstro que tomou conta de mim. Fui demasiado para hoje poder ser nada. Ainda sinto o calor nas pontas dos dedos nesses fins de tarde.

Espelho.

Por vezes, pela manhã, ainda imerso na sonolência ignorante que antecede a sonolência inevitável e consciente que é ser eu, quedo-me de braços apoiados na bacia da casa de banho durante alguns instantes, olhando fixamente o espelho, olhando-me nos olhos. Não sei ao certo porque o faço. Faço-me imensas perguntas e procuro as respostas no brilho esverdeado do meu olhar. Pergunto-me se ainda corre sangue nas minhas veias, ou se engrossou e engasgou as artérias de tão pouco subir ao coração que bate morosamente, cansado de ser apenas um pedaço de carne palpitante e não um símbolo de sentimentos e humanidade.
Pergunto-me se vale a pena erguer a lâmina de barbear ou se é preferível tombar o corpo na cama, onde o mundo é igual e apenas o tempo passa mais depressa, abrigado pelo descanso e o cérebro em baixo consumo. Pergunto-me se ainda me lembro daquilo que fui, daquilo que devia ser, daquilo que tardo em ser, do fogo e das tempestades, da força para mover continentes e da intensidade cataclísmica da minha paixão, do meu amor, da minha atenção.
Mas o meu olhar está isento de brilho. Não tem palavras nem respostas, pois se mal tem vida que transpareça através das retinas. Acabo inevitavelmente por virar a atenção para a bacia, onde a brancura do esmalte esconde as imperfeições de qualquer um. Acabo por ter vergonha daquilo em que me tornei.

Sóbrio.

Nada me inebria. Não há paixão nem fascínio na minha vida. A fonte secou e levou-me as lágrimas e os arrepios de beleza. Não há centro nem foco que me capte o olhar mais do que o tempo necessário para perceber que continuo impassível perante tudo. Um dia é só mais um dia, uma cruz mal desenhada no calendário, um acrescentar de segundos e minutos e horas que terminam com o nascimento de um novo dia, de um dia demasiado igual ao anterior.

Não me lembro da última vez que sorri de surpresa pelas coisas fantásticas que podemos viver.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Eu sei que dói.

Apertas essa mão com força nos momentos em que esqueces que fui. Apertas e guardas pouco mais que ar nessa palma, nessa pele sem a suavidade de outros tempos. Sei que dói. Sei que os momentos se sucedem e que te recusas a saber o inevitável. Fui. E mesmo assim apertas. Sei que apertas. Acordo ainda com as marcas dos teus dedos no pulso, quando dormito pelos cantos da casa.
Essa mão que sempre me pertenceu. Desde a Noite em que a descobri, soterrada numa manta que cobria os nossos sentimentos do resto do Mundo, enquanto a televisão mostrava um filme para nos disfarçar um pouco mais. Sei que dói. Também eu a perdi. Fui e perdi. Abriste-me a porta e saí. Apertas esses lábios quando te lembras de mim. Sei que dói. Beijas o ar e sonhas-me rarefeito. Tentas esquecer que não estou. Sei que dói. E o teu Outono prolonga-se, minha flor primaveril. E o meu Inverno gelou, meu floco de neve. Não consigo ligar este coração com uma mente tão cheia de apertos invisíveis.
Aperto esta mão quando as queimaduras de gelo ardem tudo aquilo que continuo a
deixar de ser por tua causa. Aperto estes lábios quando reconheço o desencanto desenhado em cada canto de mim. Desenhado e assinado com o teu nome. Como eu sei que dói!

Ca(r)ências.

Debato-me com a minha própria amargura. Tanto que este sabor de morder-me sempre de desgosto arrepia a pele que se recusa a aquecer. Com um olhar mais fixo que este, seria um boneco de corda à espera de uma criança curiosa. Passo demasiado tempo a não saber como dizer que sangro demasiado há tempo demais. Sou fel embalado em carne e cismo o fim do Verão de olhos perdidos no trabalho que se empilha na secretária nova que sempre esteve ali.

Não sei o que espero nem sei se vai chegar.

Cadências.

Vivemos ao ritmo das nossas próprias canções. Tocamos com acerto, desafinamos e por vezes nascemos até sem saber cantar mas todos temos uma pauta tatuada na alma. Não tenho mais para oferecer senão uma viagem. Outra viagem que muitos preferem não contar. Graves, agudos, picos e fundos. Só ofereço o que tenho para dar. Só me ofereço, e pouco mais.

Cada passo é um acorde. Cada frase, um verso para o cardápio.