sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Dragão.

Tendo, por vezes, a deter-me perante uma verdade que me assoma. O Abismo é-me familiar. Tão familiar que lhe conheço os cantos, os caminhos e a cor.

Em que momento? Em que dia ficámos tão intímos?

A resposta ilude-me quando lá vou. Abaixo. Onde ninguém quer ir. E a facilidade com que de lá saio aterra-me. Como se conhecesse os alçapões e os atalhos bem demais. Quando? Quando é que o caçador de dragões voltou, também ele, um dragão?

A resposta não surge durante o meu dia. Ou noite. Passo-os a serpentear pelas rotinas, a pairar sobre os debates e a vomitar fogo sobre aqueles que me incitam. Os meus olhos, novos, atravessam as almas dos demais e dizem-me mais do que muitas vezes quereria saber. Na Noite, sob a Lua redonda, ganham uma matiz esmeralda. Detenho um fervor carnal que me escorre pela fronte nos momentos mais difíceis e seguro as minhas garras quando sinto o aroma de uma mulher junto de mim.

De facto... sou um dragão.

Trono.

Sou apenas uma abominação. Uma criação grotesca de pequenos pedaços de mim que perdi ao longo da vida e que algo tentou recolocar. As águas da minha vida fluem sem parar, sem nunca esperar pelo inevitável desaguar nas trevas. E eu estilhaço, estilhaço até nada mais restar, estilhaço até ser aquilo que uma vez fui: Uma mera ideia.

Depois volto a reconstruir-me, volto a esquecer-me de onde encaixam certas partes de mim e volto a ficar um pouco mais incompleto. Os anos passam e as peças acumulam-se, espalhadas no chão mesmo à minha frente, sem destino ou lugar.

Durante todo este tempo, confrontado com os meses, com os ventos e as mudanças, com o leve som do ponteiro do relógio, eu estive aqui. Sentado neste trono. Aqui. A segurar o meu copo de tragédia com o mesmo sorriso de sempre. Aqui. Recostado e cismando. Aqui. A beber do meu cálice. Aqui. Ainda aqui. Sempre aqui.

Sou apenas eu.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Noite.

A Noite, temo, guarda-me rancor. Distende-se em gritos e dores certas vezes em que durmo. Ouço-a a lamentar-se contra o vidro, sacudindo-me as persianas, disfarçada de vento.
À luz da Noite tudo fica claro. O Sol cega em demasia. É no sobranceiro reflexo de um candeeiro mornamente aceso que encontramos as respostas. O Amor debaixo das estrelas, o Ódio por entre as labaredas de uma fogueira, uma teia de aranha vísivel sob o luar. Todos os meandros, cruzamentos e decisões despidos no silêncio da cidade.

E Ela contorce-se e uiva por mim, como se o dia fosse um mero interlúdio da vida. Pede-me para ficar, para chegar-me mais perto. Sussurra-me horrores e promete-me prazeres. Os vidros tremem de surdos e eu agito-me na cama inquieta. Se ao menos uma Noite fosse nossa...

terça-feira, 13 de março de 2012

Pairar.

Uma leveza, uma absurda leveza que este corpo pesado não consegue sustentar na lógica. A gravidade incerta e o nosso mundo a pairar. Os carros parados, a música muda, o vento inerte, o ocaso indeciso e o nosso mundo a pairar.

Depois, quando os corpos se reencontram, os assentos nos recebem e o mundo volta a girar, volto a olhar-te nos olhos e deixo-me levar.

Só tu me fazes leve. Pela tua mão estarei sempre a pairar.

Voar.

Nada em mim me encanta, pouco de mim se preenche. Vivo pois, que respiro o Amor e as outras salvações que o mundo me esconde à frente dos olhos, sempre a guardar este desgosto, esta disforme presença que me segue porque está em mim, este atrapalhado produto final que sou no fim de tantos anos de ideias e rascunhos.

Não rejeito o que sou mas tropeço demais no que queria ter sido. Não me contento embora me vejam contente. Não me satisfaço mesmo quando estou satisfeito. Ora, se nem me calo quando estou calado. Sinto-me capaz de melhor e incapaz de sê-lo. Os dias sufocam-me a ambição, açaimam-me a voz e restringem-me ao tangível.

E eu que gosto tanto de voar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Instante.

Os anos abraçam meses e os meses guardam dias nos bolsos, amachucados em folhas que decoram o fundo do latão do lixo.

... E às vezes abrimos os olhos. Abrimos os olhos como se nunca o tivéssemos feito antes, como se a vida para trás não houvesse vivido, como da primeira vez. As palavras não deixam de ser palavras nem o escritor esquece o que escreveu. Às vezes... às vezes o instante leva a melhor. Em cada instante fica um livro por narrar, um filme por rodar, um poema por declamar.

Ai o que eu perco num instante.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vizinhos Intrínsecos.

Escolho a cadeira certa. Sento-me de frente para o olhar fixo no meu. A conversa desprende-se de palavras, pendura-se nos corpos. As mãos, níveas, repousam em cima das minhas que aguentam o tampo frio da mesa. Usa uma camisola em lã de um azul que não consigo apontar, nem tanto a matiz do céu, nem tanto o tom do mar. A beleza assombra-me sempre que me detenho na curva ideal dos seus lábios, no traço delicado do seu nariz, no contorno dos olhos castanhos, na ternura sincera do seu sorriso. Tamanho assombro este de ver tudo o que quero assim tão perto. Eterno assombro. O cabelo, moreno e sedoso, mais do que alguma vez imaginei ser, pende-se-lhe na fronte à espera que os meus dedos inquietos o arrumem no lugar. Tem a pele quente e os meus lábios querem comprovar. Dedico-me a guardar tudo o que tiver para dar-me. Mesmo que quisesse, não saberia o que dizer que não fosse óbvio neste momento.

"És linda."

"Amo-te."

Eterno Verão.

É tanta a chuva que nos sentimos anfíbios. As árvores, antes algas que algo mais, baloiçam ao compasso dos ventos húmidos e estacam nos dias gelados. As ruas são rios e os rios, transbordados, são ora mares que desaguam na doca. O ar, outrora respirável, transcende-se agora numa versão perfurante que força a sua entrada nos pulmões ávidos da vida humana. Ainda assim é Verão. Não no céu, não na agenda que se esvai em folhas, muito menos na mente de um qualquer transeunte a caminho do trabalho. É Verão aqui dentro. Dentro de mim trago Sol.

Eis o poder do Amor. Como a vida, consegue emergir no cenário mais estéril, na situação mais inesperada, no caso menos provável, no quadro mais negro, na pessoa mais reticente. Em mim. O tempo? Distorço-o segundo a minha vontade. É Verão. Aqueço o meu mundo, aqueço-lhe os lábios. Escrevi ontem, há um mês, há muitos, não sei. Tenho tanto para escrever que desconheço onde começar.

Não me lembrava de ser assim. Nunca foi assim.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vizinhos Longínquos,

Escolho a cadeira certa. Sento-me de frente para o olhar fugidio. A conversa perdeu o interesse mesmo antes de começar. Respondo de forma arbitrária, coloco em questão o meu intelecto. O meu intelecto perdeu o interesse mesmo antes de o usar. Usa um vestido em tons escuros que a escassa luz não ajuda a clarificar. Tem um sorriso quase novo que exibe nos intervalos da Noite. Dedico-me a esperá-lo. O cabelo, solto, ondula liso com o ar nocturno e implora pelos meus dedos. No ar paira o cheiro do seu amaciador que provo e aprovo. Ensaio mais umas palavras, incerto do que estou a dizer, da pontuação ou termos correctos para o que esperam da minha contribuição para a tertúlia. A minha indeferença é menos evidente envolta no cinismo a que não tenho orgulho de recorrer. Perdoem-me.
Sou interrompido por um olhar raro, daqueles que se guardam num baú acorrentado, de tão raros e valiosos que são. Perco as palavras com o assombro. A simplicidade aterra-me e fascina-me. Não me lembro de ver uma tão violenta e simples imagem de ternura. Dedico-me a guardar tudo o que tiver para dar-me. Troco as palavras por gestos e ruídos sem nexo. O diálogo de olhares ganhou todo o meu interesse.

No Banco de Trás.

A vida passa-me depressa. Mal a consigo ver, sequer apanhar. Pela manhã, a autoestrada recalca a lentidão de ser. Encosto a cabeça ao vidro e estremeço com o soar exagerado do motor nos meus sentidos. Fico confuso só de ouvir, mais confuso se quiser ver.
A carrinha, berrante na sua cavalgada, alberga pessoas demais, palavras e cheiros demais. Confesso que me confundo só de escrevê-lo. A paisagem renova-se de tempos a tempos, de panos verdes a castanhos, a pedaços de água que não sei nomear, a vinhas e a vales de vegetação polvilhada. Por fim consigo acompanhá-la. Por fim acordo para tentar viver.

A Pé.

Caminho só. Os ombros dobrados para a frente para as mãos acertarem nos bolsos. Atravesso as artérias secretas da cidade, diluído no sangue que escorre das calçadas às sarjetas. Deixo a apatia guiar-me. Levo a mente afastada do corpo. Vagueio por reflexo enquanto mergulho na minha ausência do mundo. Procuro a causa e tropeço nas consequências, ainda que não pare de andar rua fora.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Monstro.

A luz da casa de banho entreaberta contorna um corpo sobre a cama desordenada que descubro não ser o meu. Reclassifico a minha geografia no regresso à realidade e sento-me junto à cabeceira, tentando percebê-la. Esta mulher que aqui repousa, fui eu que a trouxe, foi ela que se deixou trazer até aqui. Respira saudavelmente e reage à minha mão nas suas costas com duas ou três palavras mal desenhadas. Julgo que disse o meu nome. O reconhecimento garante-me um sorriso. A lucidez vem vindo pé ante pé. Lembro, aos poucos, o sucedido. O que tinha vestido, que agora se confunde com o soalho escurecido do quarto, o seu perfume, que agora evaporou à mercê do nosso suor, e mesmo o seu nome que agora se ergue na minha mente como um enorme letreiro de Las Vegas. Mais uma Noite a alimentar o Monstro. As minhas mãos inquietam-se na sua pele e a Noite ainda é nossa.

Suspenso.

Pairo sobre os dias. Flutuo por entre os ares quentes da minha paixão pelas coisas e os ventos gelados da minha mente. Para cada sorriso que me encanta há um excelente motivo para ignorá-lo que rapidamente engendro, por cada beijo que os meus lábios imploram há uma dezena que o meu cérebro nega, em cada corpo nu de mulher na minha cama há uma razão para ser efémero.

Para cada texto que escrevo há outro que diz praticamente o oposto.

Inerte.

A quietude faz-me cismar no caos. É a sós com o silêncio que melhor me conheço, que melhor sei encontrar a pessoa que sou neste momento, a pessoa que escolhi para ser neste instante do prato giratório de formas que consigo assumir. E quando o corpo se contorce oiço-lhe o revirar dos músculos e da alma em gemidos secretos. Tudo ecoa no vazio da voz. Ganho cada vez mais apego a este sossego aparente, a esta dormência sacudida que a paz no início de Noite me traz. É sempre no espelho escurecido pelas estrelas que o meu reflexo tem mais brilho, sempre aí que consigo observar-me sem virar o olhar para os ladrilhos da sala alumiada. Orgulho-me tanto do que não consigo identificar em mim que prefiro-me incerto e encoberto no ocaso dos dias. Quedo sobre o sofá, distancio-me friamente dos horrores quentes que aperto no peito e racionalizo o impensável.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Noites.

Vivo Noites agitadas. No meu quarto, lá fora, dentro de mim, as Noites descrevem-se em tumultos. Constantes lembranças de humanidade que me ocorrem quando aperto entre os dedos pensamentos lascivos que embaraçam as paredes que os guardam, sentimentos antigos de querer invadir o corpo de alguém com o prazer em mente. Acorrento-me à cama e fecho os olhos com força. É a depravação que vem chamar-me, sussurrar-me. E eu com tanta vontade de ouvir.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pequena Frustração.

Já tentei achar o amor no fundo de um lago, ler cartas românticas nas nuvens e apaixonar-me pelo som da chuva. Tentei de tudo. Perceber uma alma num olhar sentido, foram tantas as que já percebi, as que tentei amar e não consegui, talvez por conhecê-las demais ou por achar que demais as conheci. Tentei de tudo e perdi. Desenhar os corpos com as minhas mãos, provar os lábios e os sorrisos, escrever textos inebriados, deixar bilhetes rabiscados. Tentei de tudo. Já corri pelas ruas atrás da paixão, já tropecei no sexo e na saliva e já caí em mais camas do que as que recordo. Parece que nasci apenas para cismar com o Amor e não para vivê-lo.

Vago.

Há sempre aquele tempo vago que tememos preencher, que escolhemos guardar e ficar a ver morrer. Aquela hora em que nos encolhemos e apertamos os dedos com força contra as palmas das mãos, não vão eles querer escrever. Consigo ficar semanas acorrentado ao meu próprio silêncio, às palavras sufocadas no interior do peito. Depois quebram-se as algemas e a caneta fica mais perto da folha abandonada.

Apenas um anúncio do meu regresso.

domingo, 26 de abril de 2009

Receita.

Salpico os dias de emoções, polvilho as horas com sorrisos, despejo cisma nos minutos e amasso o ser com as mãos sedentas. Recheio a mente de desejo e molho os lábios em perversão. A incerta receita para viver escreve-se num corpo de mulher.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Qualquer Coisa.

Qualquer coisa que me ilude anda por aí a pairar, escondida no calor, na brisa que não quer soprar. Uma certa sensação. Um querer. Uma comichão que me faz espernear. Anda por aí qualquer coisa, anda qualquer coisa no ar. Uma vontade de ser.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Focos de Luz Existencial.

Encontra-se luz nos lugares mais inesperados. Nos túneis mais negros, nas estradas menos iluminadas, nos sítios mais inóspitos. Pessoas há que irradiam luz na vida de outras sem nunca pedir um clarão, sem nunca esperar um facho em troca. Pessoas que esquecem o calor da luz de tanto a reflectirem para o mundo.

Por vezes a luz de uma pequena frase acende-nos um dia inteiro. Às vezes um sorriso ofusca-nos.